Abandono
Demétrio Sena - Magé
Assustada e frágil, chegou sozinha ao Pronto-socorro. Gemia, por uma dor imensa nos rins. De meia idade, o rosto emanava uma dor além da carne. Só levava os panos do corpo. Nem uma bolsa. Nem uma roupa extra. Muito menos um cobertor, lençol, produtos para higiene pessoal.
Na enfermaria, conseguiu poucos panos para o seu leito. Acho que outra paciente lhe deu um casaco, pois ela usava somente uma camiseta fina, e aquela noite não estava fácil. Chegara especialmente fria. Sonolento, acompanhei o drama sem atinar que não era um sonho. Cochilava em minha cadeira, de onde zelo por minha esposa, que há dias é também uma paciente.
Na manhã seguinte, a senhora estava um pouco melhor. Pude ouvir do nosso canto, sua conversa com um dos enfermeiros. Ao ser indagada sobre por que chegara sozinha, ela disse que não. Não chegara sozinha. Impaciente, o marido a levou de carro até a porta da unidade de saúde, abriu a porta do veículo e disse: Agora é com você; fiz muito lhe trazendo até aqui.
Com um sorriso pálido (e ponha pálido nisso), antes que o enfermeiro verbalizasse a sua indignação, ela justificou, cabisbaixa:
- Mas também, coitado; eu dou muito trabalho a ele; só vivo passando mal.
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Respeite autorias. É lei