Minha tábua segura
Demétrio Sena - Magé
Sinto que você me conhece, vasta e profundamente, no desconhecido em mim. Sabe ler o silêncio do meu inusitado e decifrar cada segredo que não conto; as mais inconfessáveis confissões que não faço. Entende muito bem o ininteligível das escritas de minh'alma; das escrituras profanas - e submersas - deste meu testamento afetivo.
Decifro que seu olhar me decifra como nem eu faço. Que sabe do que não sou capaz, a partir do que sou. Confia no que não entende, na certeza do incerto que abona minha índole. Aposta no meu eu sobre você, com a segurança de quem se atira completamente no abismo e deixa estar. Vê bem claro no meu sombrio e não teme o temerário do que não vê, pois intui a lisura com que sou quem sou.
E você me comove com o que não diz, mas me assegura do quanto eu ouço nesse não falar. Tem um eco sincero, inquestionável para os meus gritos de socorro engolidos pelo não pedir que me faz tão pedinte. É a minha tábua segura, na insegurança do mar que não sei domar aqui dentro.
Vejo você tão próxima, mas à distância. Tão íntima e sem intimidade. Sinto-me compensado por tudo que, no fim das contas, nada. Mas que me completa e satisfaz, numa completude incompleta; numa satisfação insatisfatória. História escrita sem caneta, mão e papel. Só pela intuição afetiva. No sonho acordado em que sou grato por sua existência.
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Respeite autorias. É lei