Jovens do ecoclube e Rodrigo Campanário | Foto: Luiz Soares
Baixada Fácil
*Por Iasmim da Silva Cabanês, Guilherme Matheus da Silva Bernardino, João Gabriel Ferrarez Faraco Pereira e Robinson dos Santos da Silva
A fotografia registra instantes, mas também pode contar uma história inteira. Para o fotógrafo fluminense Rodrigo Campanário, 47 anos, natural de Niterói (RJ), fotografar não significa apenas capturar momentos. Em suas mãos, a máquina fotográfica vira um instrumento para compreender realidades, preservar memórias e dar visibilidade a pessoas e territórios que muitas vezes permanecem fora dos grandes holofotes.
Rodrigo teve passagens pela fisioterapia e pela administração antes de encontrar na fotografia sua vocação. Em diferentes momentos de sua trajetória, buscou maneiras de contribuir para a sociedade, mas sentia que ainda não havia encontrado o caminho que correspondia ao desejo que carregava desde a infância: fazer algo capaz de provocar mudanças.
A aproximação com a fotografia aconteceu ainda na infância, influenciada pelo avô. Durante os momentos vividos no sítio da família, uma pequena câmera despertava a curiosidade do menino. Além de ensinar a utilizar o equipamento, o avô deixou uma ideia que permaneceria por toda a vida: “Aprendi que uma câmera poderia funcionar como um livro aberto, capaz de contar histórias por meio das imagens”, conta Rodrigo.
Anos depois, essa lembrança ganhou um novo significado. A fotografia deixou de ser apenas uma memória afetiva e passou a ser compreendida como uma ferramenta de transformação.
Entre a notícia e a história
Ao longo da carreira, Rodrigo também passou pelo fotojornalismo, acompanhando acontecimentos para veículos de imprensa. Foi nesse percurso que percebeu uma diferença fundamental entre registrar um fato e buscar compreender aquilo que existe por trás dele.
No fotojornalismo, o foco está no evento imediato. A imagem precisa acompanhar a notícia e transmitir ao público aquilo que está acontecendo naquele momento. Já o fotodocumentarismo permite um mergulho mais profundo, buscando compreender contextos, causas, personagens e consequências.
Essa mudança de olhar levou Rodrigo a se afastar gradualmente da lógica do acontecimento imediato e a se aproximar de trabalhos de maior duração e impacto social.
Foi nesse caminho que surgiu a parceria com a ONG Guardiões do Mar, onde atua há seis anos, registrando por meio de suas lentes iniciativas como os Ecoclubes em suas diferentes formações e transformações ao longo do tempo.
As imagens passam, assim, a funcionar como uma espécie de memória coletiva. Para os jovens, elas representam lembranças de uma etapa importante de suas vidas; para o projeto, constituem um registro da trajetória de pessoas que cresceram, mudaram e seguiram novos caminhos.
Quando fotografar deixa de ser a prioridade
Entre todas as experiências vividas por Rodrigo, uma das mais marcantes aconteceu em Brumadinho (MG), após o rompimento da barragem que devastou a região. Durante 12 dias, o fotógrafo acompanhou de perto um cenário marcado pela destruição e pelo sofrimento de centenas de pessoas.
A experiência ultrapassou os limites profissionais. O contato com a tragédia deixou marcas profundas e trouxe à tona uma questão que acompanha seu trabalho até hoje: até onde o fotógrafo deve ir para conseguir uma imagem?
Em meio ao caos, Rodrigo encontrou um sobrevivente sentado em um meio-fio, sob uma tenda da Organização das Nações Unidas (ONU). O homem chorava enquanto, ao redor, outras pessoas também enfrentavam suas próprias perdas.
Naquele instante, Rodrigo percebeu que havia diante dele uma imagem de grande força estética. A composição, a luz e a situação poderiam resultar em uma fotografia tecnicamente marcante. Mas havia algo mais importante do que a possibilidade de produzir uma grande imagem: havia uma pessoa sofrendo. Rodrigo decidiu guardar a câmera. Em vez de fotografar, pediu permissão para abraçar o homem.
O gesto simples transformou completamente aquele momento. O fotógrafo deixou de ser apenas um observador e passou a ocupar, por alguns instantes, o lugar de alguém que oferecia acolhimento.
A conversa que veio depois tornou aquela experiência ainda mais impactante. Ao ser questionado sobre as perdas que já havia enfrentado, Rodrigo percebeu que a dimensão daquela dor era diferente de tudo o que conhecia. O sobrevivente havia perdido sua casa, amigos, professores e familiares. Diante daquela realidade, qualquer fotografia parecia pequena.
A ética por trás do olhar
A experiência reforçou uma convicção que Rodrigo considera fundamental. “Nenhuma fotografia, prêmio ou reconhecimento profissional deve valer mais do que a dignidade de uma pessoa”, reflete.
Para ele, o fotógrafo precisa saber quando registrar e, principalmente, quando não registrar. Em situações de extrema vulnerabilidade, a sensibilidade humana deve estar acima da busca pela imagem perfeita.
Essa compreensão também muda a relação entre fotógrafo e fotografado. A pessoa diante da câmera deixa de ser apenas um personagem e passa a ser entendida como alguém que possui sua própria história, seus sentimentos e limites.
Nesse sentido, a fotografia deixa de ser apenas uma forma de mostrar e passa também a ser uma forma de escutar.
Um olhar voltado para o futuro
Depois de anos registrando diferentes realidades, Rodrigo pretende direcionar cada vez mais seu trabalho para os povos originários e as comunidades tradicionais brasileiras.
Seu objetivo é levar essas histórias para além das fronteiras do país, apresentando internacionalmente a cultura, a força, os saberes e a identidade dessas populações.
A proposta é contribuir para que essas comunidades sejam vistas e reconhecidas por suas próprias histórias. A fotografia, nesse contexto, torna-se uma ferramenta de memória e resistência, capaz de preservar narrativas que não podem ser apagadas pelo tempo ou pelo avanço de interesses econômicos sobre os territórios.
A fotografia como exercício de humildade
Quando questionado sobre a principal lição que a fotografia deixou em sua vida, Rodrigo resumiu sua resposta em uma única palavra: humildade.
Depois de tantos anos atrás das lentes, ele aprendeu que o fotógrafo não é o protagonista de todas as histórias que registra. ”Meu papel é me aproximar do outro com respeito, compreender seus limites e reconhecer que, muitas vezes, a pessoa que fotografo tem muito mais a me ensinar do que eu poderia imaginar”, define.
Talvez seja justamente essa a essência de seu trabalho, entender que, por trás de cada imagem, existe uma vida. E que, em determinados momentos, a fotografia mais importante pode ser aquela que não foi feita.
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* Jovens de Magé, integrantes do ecoclube Grupo de Proteção Ambiental Suruiense, do projeto Andadas Ecológicas — iniciativa da ONG Guardiões do Mar, em parceria com a Petrobras —, para o curso de Comunicação Popular ministrado pelo comunicador Luiz Soares. Esse é o primeiro texto de uma série de três entrevistas realizada pelo grupo, que será publicada na íntegra pelo Baixada Fácil.