• Baixada Fluminense | 25/05/2026 - 17:41

 

Enviado por Demétrio Sena em

Carta Aberta a um Coração Fechado

Prezado (?) Luciano Huck:

Minha mãe criou sozinha nove filhos. Nove. Ela trabalhava como diarista e os filhos mais velhos - eu sou um deles - vendiam picolé, bala, salgadinhos e ferro velho. Mesmo assim, sentimos muita fome; passamos muito frio; ficamos doentes sem socorro médico; fomos expulsos de muitos quartinhos de vilas, e moramos em granja abandonada, porque nossa mãe não tinha como continuar pagando os aluguéis, mesmo sendo baratos.

Se nos longos anos de nossa criação existissem os programas sociais que existem hoje, não teríamos passado por tanta fome; tanta penúria, em um todo. Se os governos da ditadura, dos quais você parece ter saudades, tivessem criado o Bolsa-família, o Pé-de-meia, o Minha Casa Minha Vida, o Loas (para minha "esquisitice" que ainda não tinha laudo) e tantos outros programas que só os governos da esquerda criaram, teríamos até estudado no tempo certo. Nossa mãe teria continuado a trabalhar, porém menos, e teríamos tido mais a sua companhia, o seu colo e mais abraços. Nós teríamos trabalhado em meio período, como Jovens Aprendizes, e não teríamos feito parte das estatísticas de evasão escolar. Tendo estudado sem fome nem medo dela, teríamos começado a trabalhar formalmente bem mais cedo, e com isso, contribuído mais cedo com a previdência, os impostos e as taxas que ajudam a possibilitar governabilidade. Aliás, os deficientes físicos, visuais, mentais e neurológicos que hoje também consomem e geram economia, pediam esmolas, antes da criação dos benefícios sociais.

Você sabe que o dinheiro dos programas sociais também movimenta a economia; não deixa o país estagnar e ajuda você a enriquecer ainda mais. Quer saber como? É evidente que você sabe, mas tem lapsos de memória e por isso diz besteira. Então eu vou dizer: graças aos programas sociais que você critica, esses milhões de brasileiros e brasileiras assistidos pelo governo podem comprar um televisorzinho. Graças a isso, assistem (inadvertidamente) ao seu programa dominical. E por essa audiência, os mega empresários investem, patrocinam, parceirizam. Isso mantém o seu programa, seu salário milionário, seus super cachês por por anúncios publicitários e aparições. Viu só? Não é o seu dinheiro que alimenta os pobres; são os pobres que geram seu dinheiro e dão cada vez mais audiência à sua ingratidão. 

E antes que você diga mais uma vez, em rede nacional: "mas também, para quê tantos filhos?", respondo, e não é opinião; é fato: Patriarcado, Luciano. Alimentado pelos políticos da ditadura crua e os da ditadura em banho-maria, que deixaram herdeiros. Patriarcado em parceria com religiões que reduzem as mulheres a procriadoras e servas do lar. Se hoje isso é mais disfarçado, mas existe ainda, imagine como já foi? As religiões que orientam as mulheres a serem "coelhas" dos homens são as mesmas que representam e negociam os votos de milhões de homens e mulheres pobres, desinformados e simples, como toda a elite gosta, para se manter dominante. Gosta, mas critica os programas que mantém as pessoas (bem) menos favorecidas respirando. 

"Ah, e tem muita gente que não precisa e recebe os benefícios!". Pode ser. Muita gente mais perto da sua classe social do que da classe pobre e trabalhadora. O problema não é a existência dos programas sociais; é a existência dessas pessoas de má fé que ajudam a acentuar a má fé dos que desqualificam ajudas. Acho realmente uma pena que você, após tantas convivências relâmpago com pessoas pobres, para entregar os prêmios filtrados de seus bingos televisivos, não tenha se tornado mais empático, solidário e sensível. Também é muito espetáculo, muita ribalta, muito choro ensaiado e discurso que plagia discursos anteriores. Isso pode realmente ser desgastante. Ainda assim é uma pena que você nunca tenha saído da bolha, mesmo saindo às ruas e se misturando, algumas ou muitas vezes.

Seja como for, tenho algo a lhe agradecer. Agradeço, de todo o coração, por você não ter levado à frente aquela pré-ideia de se tornar presidente do Brasil. E também por não ter tentado uma vaga no congresso. Você é muito persuasivo; com o tempo, conseguiria muito apoio para devolver o país às piores fases da fome popular. Já chega de bolsonaristas! Dos declarados e dos bolsonaristas "nem Lula nem Bolsonaro".

Atenciosamente, 

Demétrio Sena - Magé, 26 de maio de 2026

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