Sócrates estava tão à frente do seu tempo que foi condenado à morte. Cinco séculos antes de Cristo, humildemente, declarava: “Tudo que sei é que nada sei”.
Heráclito, numa frase, resumia toda uma filosofia:- “Ninguém põe o pé, duas vezes, no mesmo rio”. Denunciava o velho causo da impermanência e da eterna mudança.
Eu gastaria páginas sem conta para falar sobre a sabedoria e também sobre a ignorância humana. Sob esta ótica, sonho, há algum tempo, com o desafio de escrever um trabalho de filosofia com fábulas, parábolas, ensaios e outros artigos, à guisa de filosofia. Um enfoque diferenciado, na sua construção, do que estamos habituados a ler. Tenho plena consciência de que há, em mim, um poeta, um crítico e um filósofo que não obedeceriam jamais a regras traçadas pelas escolas tradicionais, para tratar de assuntos relacionados com educação, arte, teologia, política, entre outras. Tenho também, em mim, um escriba que não se permite dialogar com asas cortadas ou amarradas. Isso, no mínimo, me sufocaria a voz e a liberdade para recriar. Mas, mais do que o poeta, o crítico e o filósofo, a minha busca insana da verdade, muitas vezes, além do que eu posso ver, se oporia fatalmente a obedecer a métodos extremamente estruturados. Talvez por incapacidade, me sentiria aprisionado, se tivesse que criar, prestando obediência a exigências metodológicas rígidas e, para mim, imobilizadoras. Não as questiono: apenas denuncio a minha impossibilidade de criar qualitativamente, desta forma. Esta, a minha verdade, em meio a tantas verdades que qualificam períodos de vida que se fizeram história. Falo de guardar estruturas, em meio a mudanças. Um exemplo que pode ser citado é o império de Luiz XIV, da França, um déspota que privilegiou a arte. E o que ficou? O déspota ou o mecenas? Claro que apenas a história que o engrandece e desnuda. E tudo que se criou a sua volta, inclusive Moliere, provando que seria cômico, se não fosse trágico, o imobilismo.
O cientista, em mim, é um sabotador de si mesmo. O crítico que me acompanha é sempre uma grande ameaça ao meu próximo passo; um freio que me exige sempre o melhor e me obriga a reelaborar o que não se pode ou não posso ver claramente, de imediato. É muito comum eu querer modificar, mesmo que parcialmente,cada texto já escrito ou esboços da próxima escolha, num entra e sai de variáveis, antes mesmo de considerá-lo terminado ou de arriscar o próximo salto, se não sinto clareza e objetividade ou foco, no fluir da trama, como um espelho da vida. E isto é práxis viva! O que se contrapõe frontalmente ao espírito científico. Não conheço dialética sem prática. Amante da arte, meu traço literário é comumente sintético e, portanto, faca afiada: vida e arte desafiadas.
Avida é obra aberta.
Em resumo, todo esforço exercido no sentido de transformar processos sem dilapidar estruturas poderia acabar em nada. Com o risco de nenhum texto ser concluído, por não me satisfazer plenamente. Nietzsche entenderia como destruir para construir, em sua teoria sobre o eterno retorno. E eu me oriento pela reconstrução, se possível, sem perder pilastras do que está sendo deixado pra trás. O que me cativa não me faz cativo, mesmo me arriscando a chegar à beira do abismo. Mas a minha teimosia é maior. E não desisto. Alguns chamarão de persistência, mas eu tenho a certeza de que é teimosia. De positivo, a minha fé inabalável e quase infantil de transformar as coisas para melhor, para o traço humano, velho caminho para a natureza. Poético, não é?! Pois é! Mas nada científico!
Mas não existe caminho impossível. Tenho certeza de que terei muito prazer em investir nessa empreitada. Pouco importa se o cientista será mais ou menos valorizado que o sonhador ou vice-versa, da mesma forma entre o crítico e o filósofo. O importante é a liberdade para exercitar capacidades, descortinos e até os meus próprios limites. Aliás, esta é a proposta principal: Realizar! Transformar! Ir, sempre que possível, além da forma e da fôrma. E o mais importante, me parece, é clarear os caminhos de sombras, separar viável e inviável, eficácia e falácia, alhos e bugalhos (é o que sei fazer de melhor), na mais pura arte da desmistura.
Ao sonhar com a vida, faça! Para não restarmos apenas observadores, à beira do igarapé.
Em nome do humano, da poesia e da liberdade, basta enfiar o pé no mutante rio, pra ver que, imediatamente, a vida se espalha.