Colunistas | A Arte da Desmistura | 25 de junho de 2015 - 04:50

A primeira página

Ivan Wrigg

     Há uma parábola árabe que discorre sobre liberdade e determinismo, deixando claro que não se devem tomar decisões precipitadas, diante da vida. As coisas têm o seu tempo certo de ser, como as frutas de ficarem maduras e as flores de nos encantarem com sua beleza e nos deliciarem com seu perfume.


     Ela é a seguinte:


     “Um homem possuía um belo cavalo. Certo dia, o cavalo desapareceu. Seus vizinhos, ao saberem da notícia, exclamaram:


     - Que azar!


     Mas o homem simplesmente respondeu:


     - Talvez...


     Depois de algum tempo, o cavalo reapareceu. E trouxe consigo três outros cavalos selvagens. Os novos cavalos eram ainda mais bonitos e fogosos do que o que fugira.


     Quando tomaram conhecimento do fato, os vizinhos afirmaram:


     - Que sorte!


     Mas o fazendeiro, novamente com simplicidade, respondeu:


     - Talvez...


     O filho mais moço do fazendeiro tomou um dos cavalos para si e resolveu domá-lo, mas o cavalo era selvagem e, numa das tentativas de domá-lo, o cavalo, num movimento brusco, arremessou o rapaz ao chão. O rapaz, ao cair, quebrou a perna. E os vizinhos imediatamente comentaram com o pai:


     - Que azar!


     Mas o fazendeiro, mais uma vez, respondeu, simplesmente:


     - Talvez...


     Pouco tempo depois, estourou uma guerra naquela região e muitos pais sofreram porque seus jovens filhos, sem possibilidade de se negar, foram enviados para a guerra. Menos um. Um rapaz que foi dispensado por que estava com a perna quebrada: o filho do fazendeiro!”


     E a história se repete. Nós não tempos capacidade de nos anteciparmos ao tempo.


     Um rabino do século XVIII, quando lhe perguntaram porque faltava a primeira página do Talmude Babilônico, respondeu:


     - Porque, por mais páginas que o homem leia, ele jamais deve esquecer que ainda não chegou à primeira página.