Sismografia | 26 de dezembro de 2016 - 17:07

Um brinde ao fim, mas bebamos ao recomeço

Um casal brigado está sentado à mesa. Almoço de domingo.


Crise: comida ruim, bastante ruim. Arroz requentado, alface murcha, ovo frito dividido e um copo d’água.


O marido, solícito a fazer as pazes, a despeito da crise, ergue o copo de extrato de tomate.


- Um brinde à vida!


- Brinde com água?


- É o que temos.


- Com água eu não brindo.


- Mas, Nícia, brindemos à vida. A água é mais de 75% do nosso corpo. Água é vida.


- Outra hora  a gente brinda, Noberto.


- Tudo bem.


Noberto solta o copo, triste, e volta a garfar seu arroz.


Nícia enraivece. Ergue o copo esparramando água.


- Ah, sim! Acho que pensei num bom motivo pra brindar.


Noberto sorri e a acompanha.


- A que, minha rainha?


- Vamos brindar ao fim dessa relação sem sentido!


- Não brindo a isso não...


Nícia devolve o copo à mesa, indiferente. Noberto repensa e torna o copo ao alto.


- Ao recomeço dos amores!


Nícia foge com o copo. Ele tenta tocá-lo, sem sucesso.


Ela ergue o copo.


- Ao fim das ilusões amorosas.


E persegue o copo do marido, que foge.


Nícia levanta para tentar alcançar o copo de Noberto. Ele ergue-se e afasta-se para sua retaguarda. Ela roda atrás do marido pela sala. Ele sobe no sofá. Ela circunda a mesa de centro. Ele esquiva e passa ao corredor. Daí inicia-se uma perseguição que vai dar no quarto.


Enfim, ela o alcança. Ele está contra a parede.


-  Ao fim dessa merda de casamento que nem deveria ter acontecido, Nícia diz.


- Ao recomeço de uma vida feliz, Noberto responde.


- A Deus, que não me impediu de ter cometido o pior erro da minha vida, que foi me tornar sua esposa.


- Ao diabo, que desceu do céu com a terça parte dos anjos e criou o tesão que eu sinto por você toda noite.


- À sua boca calada!


- Às palavras que saem da sua e me fazem um homem melhor.


De súbito, Nícia atira a água na cara do marido.


Tapa a boca e arregala os olhos, não acreditando no que fez.


- À sua paciência e carinho comigo, ela propõe, com uma voz doce e arrependida.


Ele faz o mesmo com a água. Para a surpresa da mulher, que fica com a face encharcada.


- Ao meu sangue, que não é de barata, diz Noberto.


Ele sorri.


Ela sorri.


Ambos riem juntos.


Estão com os rostos molhados.


- A nós, falam em uníssono.


Brindam.


Mas os copos estão vazios e as faces molhadas.


Então lambem cada qual o rosto alheio,já deitados na cama.


  • Seus dados

  • Nome completo *
    Digite seu nome completo
  • E-mail *
    Digite seu nome completo

  • Dados dos seus amigos

  • Limite de 10 e-mails por envio.
  • Nomes *
    Caso queira enviar para vários amigos, basta separar os nomes com vírgulas.
    Exemplo: George Gonçalo, Ana Leticia, Mauro Gomes
  • E-mails *
    Digite os e-mails dos seus amigos. Siga a mesma ordem dos nomes.
    Exemplo: george@email.com, ana@email.com, mauro@email.com
  • Mensagem *
    Essa mensagem será enviada para seus amigos, junto com a indicação

Sobre o autor

Escritor e professor.

Nenhum comentário

Seja o primeiro