Sismografia | 29 de setembro de 2016 - 15:06

Tanto barulho por nada

A aproximação das eleições gera-me uma ansiedade maior que dia de lançamento ou palestra. Não, estou longe de me ater a esperanças de mudanças profundas através do voto. Mas, pelo menos, teremos uma conquista: o fim dos carros de som.


Há tempos, espero por um modo diferente de se fazer política. Chego ao ponto de buscar um candidato mudo/surdo que faça sua campanha em libras. Utopias! Estava nessa angústia desenfreada, sem eira nem beira, apenas com esses sambas e sertanojos escrotos ecoando nos tímpanos, quando Paulo me falou do evento organizado pelo Professor Nielson. Ele contou enquanto passávamos na ponte.
- Um café na praça de Bel com a população. Pra trocar ideia, falar de propostas e ouvir necessidades. O que acha?.
Achei ótimo. Paulo tem excelentes ideias. Sobretudo porque qualquer cidadão que queira pensar antes de votar procura, no mínimo, dialogar com o candidato. E sente falta de debates para prefeito aqui na Baixada. Mormente aqueles que contemplem todos os candidatos, não os que restrinjam os mais críticos ao coronelismo local. Falta de bate-papos em espaços públicos com os candidatos a vereador. Além disso, o café é um simbolismo: a bebida mais democrática que existe.



Daí, fui eu tentar propor a um candidato que marcasse um café com a população...


- Ainda dá tempo. As praças estão aí. Em cada bairro há uma. Fácil, né? 
- Sim, fácil, ele me disse, com um ar messiânico.
- O quilo do café no Atacadão da Dutra é R$ 6,00. Fácil também? 
- Fácil.
- E pra sentar não precisa de poltrona reclinável, cara, basta um banco de plástico que se encontra em qualquer varanda. Fácil, também, né? 
- Facílimo.
- Só mais uma coisa. Esqueci de dizer. 
- Lá vem você...
- Não, relaxa. É, tipo, o principal. 
- O que é? Desembucha.
- Você vai precisar de...ideias.


- E isso tem na varanda?


- Não, você não encontrará isso em varandas. Na varanda são os bancos de plástico. 
- Foda-se, eu compro no Atacadão da Dutra então.
- Não, por favor, não vendem-se ideias no atacadão.
- No Varejão?
- Não, cara, nem no Varejão. Varejão nem existe! Não se compra ideias! 
- Mas eu compro voto, como não compro ideias?
- Olha, vamos esquecer isso de comprar e vender, sim? Pra ter ideias, é preciso pensar. Tipo um parto. 
- Dá trabalho... 
- Sim, mas esse É O SEU TRABALHO! Pense a cidade, estude a cidade, pense as pessoas dessa cidade e terá ideias. 
- (...)
- Você não está acostumado a pensar? 
- O outro método é melhor.
- Qual?


- Das carreatas. com fogos. Buzinas. Carros de som.


- Ah, entendi: quanto mais barulho você fizer, menos precisará falar.



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Sobre o autor

Escritor e professor.

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