Sismografia | 01 de novembro de 2016 - 22:39

Onde a razão não alcança

Tudo o que já se pensou a respeito da morte é pura conjectura.


Já parou pra imaginar que absolutamente todas as coisas que relacionamos ao fim da vida têm grandes chances de não serem reais?


Reencarnação. Seio de Abraão. Purgatório. Céu. Inferno. Se encontraremos os mortos quando morrermos. Se haverá uma cidade celeste. Essas são noções religiosas, e de certo não há nada.


E a concepção materialista do “morreu, acabou”? Também não sabemos se é real, embora seja mais compatível com nossa natureza orgânica. É científico, isso é fato. Mas a característica fundamental para ser ciência é a possibilidade de se refutar. Logo, não há verdade.


Amanhã é dia de finados. Diferentemente dos católicos atuais e pagãos da idade média, para mim este era apenas um feriado chuvoso. Mas algo mudou. Me vem a pergunta: onde estão nossos mortos? Morando em nossa saudade. Esta é a única resposta possível.


A saudade é uma típica kitnet da Baixada: apertada e de fundos. quatrocentos reais por mês e nem precisa pagar água. Precária... mas quem vive lá não liga pra luxo. Todos os saudosos se comprimem dentro de uma lágrima.


A saudade fica num fundo silencioso e puro da mente. Lá onde a razão não alcança.


 


                                                                               *


 


De certeza, há a calamidade na saúde da Baixada Fluminense, que mata e entristece. Em treze de setembro deste ano, os funcionários do hospital da Posse ficaram seis minutos procurando uma maca para colocar a minha irmã. Ela morreu naquele dia.


Segundo o médico, ela deu entrada no hospital em óbito. Segundo o médico.


Nunca saberei se aqueles seis minutos poderiam tê-la salvo.


Nunca saberei onde ela está. Se ela existe. Se ela é algo.


Foi estranho e abrupto. Ela morava embaixo de mim e, de repente, há pouco mais de um mês, saiu de casa. Eu a vi saindo. Fui eu que a levei. Nem deu tempo de nos despedirmos. Eu queria tê-la perguntando: pra onde tu vai?


O que importa não ter perguntado? Nem ela sabia a resposta.


Mas hoje eu descobri. Ela veio morar em minha saudade.


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Sobre o autor

Escritor e professor.

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