Sismografia | 11 de setembro de 2016 - 00:27

O triste fim dos rios

À beira da cachoeira do Poção em Miguel Pereira, enquanto Jéssica fotografava, eu conversava com Francisco e pensava na relação entre seres humanos e rios. Desde os egípcios com o Nilo, os mesopotâmicos com Tigres e Eufrates, até os paulistanos bandeirantes com o Tietê, rios e humanos vivem numa comunhão inigualável. Há muitos motivos para isso. Mas nenhum historiador nunca levou em consideração a semelhança entre rios e homens para explicar essa proximidade.
O rio surge em uma nascente confortável como um feto. Fininho, inicia sua jornada.
Adolescente, expõe-se em cachoeiras. Os mais sortudos, participam de cataratas. Este é o auge.
Depois, cansado de tanta baderna, o rio recebe um afluente para que a vida fique mais completa.
Daí torna-se um adulto conservador, com serenidade, apesar dos meandros e encurvamentos que a vida lhe lega.
Suas margens se alargam feito uma barriga cinquentenária para, enfim, sua foz desaguar num oceano tranquilo, sem, mesmo assim, deixar de existir, pois as águas vão se renovando sempre.
Este seria o rio de um mundo perfeito. Porque, na realidade, sabemos que não é assim. Tomemos como exemplo o rio Guandu: nasce numa abençoada e lindíssima pedra da serra do mar e até desce por algumas quedinhas dágua em Cacaria, Piraí. Mas logo vem a desgraça. Se já não bastasse ter que passar a vida a dar de beber ao Rio de Janeiro, o Guandú recebe, não um, mas vários afluentes poluídos (melhor morrer solteiro) na Baixada Fluminense. Depois é obrigado a separar-se em córregos de Santa Cruz (que todo mundo chama de valão), para, enfim, em vez de desaguar numa praia caribenha e passar a eternidade a brincar de pororocas, morrer na Baía de Sepetiba. Baía de Sepetiba! Quer um fim mais trágico?
Jéssica terminara de fotografar e nós íamos embora, quando Francisco me disse que aquela cachoeira que nascia à frente de nós desaguaria no Rio Guandu. Resolvi mudar de assunto. Não acredito em predestinação. Quem sabe houvesse uma represa, um desvio, um açude? Vai saber? Ou talvez não, e os rios estejam condenados a um princípio glorioso e um final trágico. Feito nós.
Talvez viver seja a arte de imitar os rios.


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Sobre o autor

Escritor e professor.

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