Sismografia | 31 de julho de 2016 - 22:13

A carteira branca

- Esse desgraçado que não para de mexer na minha virilha! Vibra e me faz cócegas, sobretudo porque eu não quero e nem vou pegá-lo. Li, um dia desses na coluna do Antonio Prata, que no futuro distante nossas virilhas serão áreas sensíveis, produto de milênios com o celular vibrando no fundo do bolso frontal.


- Ah, que saudade! Você ainda lê os mesmos cronistas aos domingos de manhã?


- Sim. Por isso eu os perdoo. Os cronistas são pagos pra delirar. Eu me lembro que você lia comigo, Cris.


- Eu tentei ler crônicas, amor, mas achei muito triste, você sabe.


- Verdade. No fundo, por mais que tenha humor, a crônica é um depósito de tristezas.


- Acredita que teve uma frase que você me mostrou numa dessas manhãs literárias de domingo e eu nunca esqueci?


- Ah, é? E qual é, Cris?


- “A vida começa todos os dias”.


- Érico Veríssimo. Ele sempre nos ensinando que não importa o erro, a cada nascer de sol a vida nos dá uma nova oportunidade. Sempre genial. O oposto do desgraçado que inventou que celular tinha que vibrar. O meu não para de vibrar no bolso.


- Olha esse celular então, vai que é uma urgência?


- É, eu sei, pode ser uma urgência, mas essa coisa de internet, sei não, parece estar nos contaminando, estamos cada vez mais próximos de quem está distante e cada vez mais distantes de que quem está perto.


- Você virou um moralista, hein.


- Eu, moralista? Talvez, Cris, de qualquer modo, gostaria de aproveitar essa viagem contigo, não é todo dia que temos o trem vazio nesse horário, afinal. Vê, quase todas as poltronas estão desocupadas, tem nego até deitado, os camelôs estão desesperados, note os rostos deles.


- Tá, chega disso, parece que quer escrever uma crônica. Faça algo melhor: me fale de você, lindo.


- Não, antes de falar sobre mim, me fale de você. Vamos, Cris, como tem andado?


- Estou mais ou menos. Faz anos que não nos vemos. Fomos felizes, né? Aqueles moteizinhos depois de um choppinho, lembra, amorzinho? Delícia.


- Verdade, faz anos que não nos vemos. Fomos felizes sim, mas acho que terminamos no tempo certo. Eu terminei no tempo certo. Quando os casais vão longe demais acabam ficando longe demais um do outro. E acabam comentendo erros morais.


- Que erros morais?


- Tipo desejar outras pessoas.


- Desejar é normal, meu amor.


- Como assim é normal desejar outras pessoas quando se está num relacionamento? Não, Cris, eu não acho. Não acho que o desejo seja normal, isso é coisa de quem permite. Nós, os profiláticos, não passamos por isso.


- Profiláticos?


- É, prevenidos.


- Desde quando você usa essas palavras difíceis? Acho que desde que ficou moralista...


- Já  pode parando de me chamar de moralista. Talvez eu até tenha me tornado, mas e daí?


- Mas ai nega tudo o que sempre foi. Ih! Tá vibrando de novo, já é vigésima vez em cinco minutos, vê o que é.


- Não, eu não vou ver as atualizações, deixa o facebook apitar à vontade. Deixa o whatsapp chamar, deve ser alguém achando que estar online no grupo é uma forma de socialização normal.


- Nossa, quanto moralismo! Você mudou tanto, benzinho...


- Vamos, sossegue de me chamar de moralista, e me fale de você. Diga o que fazia na Central do Brasil até essa hora.


- Distribuindo curriculos.


- Estava distribuindo currículos até essa hora?


- Sim, estou no desemprego.


- Desemprego, Cris?


- Exato. Sem dinheiro.


- Cacete, Cris. Eu realmente sinto muito. Espero que tudo se resolva e que você esteja plantando pra colher. Que tenha aprendido a pescar o peixe.


- Por que você não me ajuda a pescar? Com essa sua vara...


- Fala sério, Cris!


- Sério. Olha pra minha cara. Preciso de uma ajuda tua. De verdade.


- Ajuda minha? Meu Deus, você sabe que ganho mal, mesmo trabalhando muito. Preciso pensar...


- Se sobrar do empréstimo, ainda te pago um choppinho. E depois... já sabe, né? Motelzinho pra relembrar os velhos tempos.


- Se sobrar você paga uma cerveja? Não... eu não sou mais disso, Cris.


- Deixa de ser moralista, amor, você não sente saudade?


- Já senti. Hoje, não mais. Eu mudei. Sério. Primeiro, que não bebo mais. Segundo, que não saio mais com homens, Cristiano. E nem venha me chamar de moralista, eu realmente me descobri no evangelho. Somos machos e fêmeas. Espero que um dia você se dê conta disso e volte a ser como foi criado. Inclusive, eu queria te mostrar uma foto aqui no celular, mas... não, deixa pra lá. Acho que nem tenho mais a foto.


- Tá, senhor cristão, nem vou discutir contigo sobre criação, de qualquer modo, deixa eu te dizer uma coisa: é seu dever repartir o pão e o peixe comigo.


- Eu sei do meu dever cristão, mesmo tendo corrigido minha sexualidade, sei que preciso ajudar você. Sei que Jesus repartiu os peixes, sei disso. Tá bom, tá bom. Vou pegar na carteira.


- Nossa, amor, carteira branca, cheia de pedrinhas, você não nega as raízes LGBT, além do mais, parece até travesseiro de motel de tão cheia.


- Olha só, não vá confundindo essa carteira cheia aqui com riqueza não, hein, até por isso que tá guardada na mochila, porque tem dois salários do mês, mil e oitocentos reais. Tava atrasado.


- Ah, eu quero ver a sua identidade... deixa?


- Ver minha identidade?


- É, deixa! Uma foto três por quatro sua antiga. Deixa? Deixa?


- Não! Sai! Não encosta nela senão eu nem te ajudo.


- Ah, tá, desculpa... calma...


- De quanto você precisa?


- Cento e cinquenta.


- Cento e cinquenta? Tá, deixa eu contar, vinte... quarenta... sessenta... Espera, espera aí, tem uma mulher estranha vindo, ela é suspeita, as coisas não estão fáceis nos trens do Rio, até mulher assalta hoje em dia. Vou guardar antes que ela chegue aqui.


- Boa noite, gente, desculpem atrapalhar, desculpem o choro também, mas é urgente, por acaso vocês viram uma carteira branca?


- Como ela é, menina?


- Branca, tem umas pedrinhas, minha identidade e dois pagamentos, desse e do mês passado, tudo pras desespesas dos meus três homens, meus dois filhos pequenos e papai, que tá muito doente.


- Branca, nem? Eu não vi... e você, meu amigo macho e cristão aqui ao lado, viu?


- Nem eu, ué. Se eu tivesse visto, com certeza falaria.


- Tudo bem, gente, agradeço mesmo assim. Ah, coloquei no grupo da Supervia do facebook, se vocês virem por aí, meu perfil tá lá, eu sou a mulher que tá implorando pela carteira, falem comigo por favor.


- Tá certo, amorzinho, deixa comigo. Se o meu amigo macho e cristão vir, ele fará a mesma coisa, né?


- Sim, claro, se eu achar essa carteira branca com mil e oitocentos reais eu te aviso pelo facebook.


- Obrigado, Deus os ajude a me ajudarem.


- (...)


- Você não tem vergonha nessa tua cara, seu falso moralista?


- É que...


- Seu macho cristão de merda!


- Mas eu...


- É por isso que não entrou no facebook, né? Sabia que poderia pipocar a mensagem da mulher querendo a carteira de volta. Depois que saísse por essas portas você deixaria de ter o dever de entregar a ela, mas enquanto estivesse nesse trem você teve medo de se defrontar com a realidade. Seu escroto!


- Por favor, não me julgue assim... por favor...


- Chora, pode chorar, isso é o seu atestado de imoralidade. Retiro tudo o que eu disse.


- Deixa eu me explicar, pelo menos! Eu estava tomado por um medo de me confrontar com a necessidade de ser honesto: ver um aviso ou descobrir a identidade do dono da carteira seria estar cara a cara com a  moralidade. E ela venceria.


- Mas não se sentiu imoral?


- Não! Aliás, foi por isso que me isolei da internet, pra não ser imoral. Sem conhecer o dono a consciência estava limpa.


- E agora ficou suja?


- Imunda... lamacenta... e dói tanto...


- Calma, vem cá, não é pra tanto. Chora, isso. Pode me abraçar, isso... isso... isso... abraço apertado bom...


- Me ajuda a devolver e pedir perdão à moça, Cristiano?


- Claro, amorzinho. Olhando nos meus olhos assim você consegue qualquer coisa.


- Obrigado, nem sei como te agradecer a me reerguer depois desse erro grave.


- Parando em algum barzinho comigo com o dinheiro que ele certamente te dará de recompensa...


- Barzinho?


- Barzinho, meu amor!


- Choppinho?


- Choppinho, meu lindo!


- E depois?


- Depois um motelzinho, meu gostoso.


- Motelzinho?


- Motelzinho.


- Então tá, depois um motelzinho.


- Agora falou a minha língua. Mas... e a igreja? E a moral? E os bons costumes?


- Amanhã eu penso nisso.


- E o que vai mudar de hoje pra amanhã?


- A vida começa todos os dias...


 


 


 


 


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Sobre o autor

Escritor e professor.

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