Baixada Prosa & Verso | 30 de junho de 2014 - 19:09

Os Pássaros, o Menino e a Presidenta

O cidadão olhou para o céu e viu um emaranhado de fios. Então pensou: se fios não houvesse, talvez mais céu a gente olhasse. Falou com o líder da associação de moradores, que levou a questão ao vereador da localidade, que cochichou a ideia ao prefeito, que conchavou com o deputado do seu partido, que transmitiu ao governador, que disse em audiência ao líder do senado, que propôs à presidenta, a qual sempre atenta à vontade popular, concordou. Depois dos trâmites legais, discussões, votações e quetais, foi sancionada e publicada a Lei do Azul Celeste Livre. Todas as empresas teriam que retirar, num prazo de seis meses, as redes aéreas, a fiação, que impedia a visão do céu e enfeiava bairros e cidades. Tudo parecia bem. E certo. E justo.


Mas nem tudo na verdade estava bem. Havia vida em risco em ariscos cenários; azáfama de asas de pássaros sem aço a escanear a vastidão. Pássaros que quase caem de cansaço e ousam fazer seu pouso sobre o emaranhado.


Havia também um menino num bairro perdido de uma cidade qualquer (dessas que brotam nas periferias das grandes metrópoles), que via e ouvia as aves. Não só seu variado canto, seus pios, assovios, trinados e chilreios, mas o significado de cada som, a sua fala. E o menino (ninguém guardou seu nome ou sobrenome, há quem diga até que era uma menina) disse: os passarinhos estão tristes porque não têm mais onde pousar. E o tal menino, que não conhecia o líder da associação, nem o vereador, nem o prefeito, nem o deputado, nem o governador, nem o líder do senado, pensou que deveria fazer alguma coisa. Senão os seus amigos alados, que enchiam de alegria e vida e canto os cedos das manhãs e os fins de tardes, iriam embora ou desabariam corpos sobre as ruas e as casas. Então ele fotografou os pássaros pousados. Fez a foto com seu celular baratinho, de costas para a claridade, como seu primo lhe ensinara, para não captar luz demais. E enviou a foto para a líder do país, via rede social, acompanhada de um texto, que dizia:


“Querida Presidenta, sou seu fã, por tudo que você tem feito de bão. Agora tá uma coisa ruim acontecendo aqui nos bairros da periferia. Tem uns caras que querem tirar os fios de luz, de telefone e de gatonete. Se rolar essa parada os passarinhos vão tudo morrer, por não ter onde pousar. A senhora é do bem que eu sei e tem que não deixar isso acontecer. Se não quiser acreditar em mim, pode pesquisar na internet. Lá tem tudo que é conhecimento. Ou então pode visitar aqui o meu bairro e ver com seus próprios olhos. Quase não tem mais árvore. Não tem mais antena de TV. Só essas redondas, que escorrega. Os passarinhos só têm os fios para descansar. Se tirar os fios eles morrem. É isso que eu queria lhe dizer. Muito obrigado pela atenção.”


Um assessor de comunicação da presidência viu nesse texto uma boa oportunidade para ajudar a melhorar a imagem de sua chefe. Depois de uma reunião com o secretário de imprensa, o ministro do mio ambiente e o ministro das cidades, a presidenta mandou uma mensagem ao congresso revogando a Lei do Azul Celeste Livre. Esta nova regra ficaria mais tarde conhecida como Lei do Pousa Passarim. As redes aéreas não foram retiradas (fazem até hoje parte da paisagem urbana/suburbana. As empresas de distribuição de energia elétrica, telefone e TV a cabo, não puderam cobrar a sobretaxa prevista para retirar a rede aérea. E a oposição ficou uma arara, mas arara também é pássaro e ficou solidária com seus irmãos voadores. A grande mídia bateu. “País é comandado por menino”, Brasil voa rumo ao atraso”, País prefere pássaros a desenvolvimento”, foram algumas das manchetes dos principais jornais. Os pássaros sobreviveram. E o menino sorriu.


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Sobre o autor

Jorge Cardozo é Poeta e Gestor de Projetos Culturais e um dos protagonistas da movimentação cultural na Baixada Fluminense. Enquanto prepara seu novo livro de poemas, Ave da Periferia, Cardozo participa de saraus e discute a produção artístico cultural da região. O poeta chegou para falar.

Acompanhe os comentários...

Total: 1 comentários


  • 01 de julho de 2014 - 11:11
    Ivan Wrigg diz:
    Muito bom, mano! Muito bom!!! O simples se mistura com o equivocado. Em vez do burro puxar a caroça, muitas vezes, a gente é que tem que puxar o burro, pra andar pra frente um pouquinho. Linda parábola.