Colunistas | Sena em Cena | 01 de janeiro de 2018 - 16:52

SOBRE NÓS E OS SISTEMAS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Uma pessoa não se rende a um sistema porque de alguma forma está inserida nele. O funcionário público, por exemplo, trabalha para seguidos governantes, dos mais diferentes partidos, e dos quais gosta e detesta; com os quais concorda e contra os quais esbraveja, mas continua funcionário público. Mesmo assim, mantém intactos os seus conceitos retos ou enviesados... às vezes raivosos.


A mesma realidade vale para os tão criticados funcionários das grandes mídias ou empresas de comunicação. Tal como acontece no setor público, lá dentro estão funcionários de todas as formas de caráter. Estão a trabalho, maioria ama o que faz, mas todos fazem muito do que não gostam, pois têm patrões. A desvantagem dos mesmos em relação aos trabalhadores estatutários, é que eles não têm as mesmas facilidades, como a de protestar protegidos pela estabilidade funcional. Por isso é muito mais fácil para funcionários públicos, como eu, execrar o servidor privado, que perderá seu emprego ao não agir de acordo com os padrões, as normas e o perfil da empresa para qual trabalha.


Generalização é preconceito. É hipocrisia. Pense, por exemplo, que os bancos pertencem a grupos financeiros cruéis e às vezes criminosos. Mesmo assim, movimentamos lá o nosso dinheiro, recebemos nossos proventos, pagamos contas e nos damos ao luxo de odiar justamente os funcionários que lá estão a trabalho, em defesa da própria sobrevivência e a de suas famílias. Exatamente como fazem os professores; os médicos; pedreiros; balconistas; advogados; jornalistas; policiais (...).


Até os trabalhadores informais – e os liberais – estão inseridos em algum sistema pernicioso inevitável, fora do alcance de sua escolha ou recusa. Maioria não se rendeu ideologicamente, mas todos precisam trabalhar.


No fim das contas, o que precisamos indagar constantemente a nós mesmos é se às vezes não combatemos o poder que almejamos; a fama que perseguimos; o sucesso que poderia ser nosso. Em suma, o sistema no qual somos os oprimidos e gostaríamos de ser os opressores. Só seremos verdadeiros, felizes e livres, depois de respondermos coerentemente aos nossos corações e consciências.