19 de maio de 2011 - 21:06

Moda: Luiz de Freitas, o Senhor Maravilhoso

Shirley Costa e Silva

Moda: Luiz de Freitas, o Senhor Maravilhoso


O brasileiro, principalmente o carioca, é conhecido mundialmente pela sua alegria e irreverência. Mas, até meados da década de 70, este povo não se vestia de modo condizente com o seu estado de espírito. O cinza predominava nos guarda-roupas masculinos. Foi então que surgiu a Mr. Wonderful. Esta grife de roupa revolucionou a moda masculina com suas peças coloridas, inusitadas e cheias de atitude, que encantaram personalidades como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Fernando Gabeira.

Esta revolução se deve ao estilista Luiz de Freitas, natural de Pau Grande, distrito de Magé. Antes de criar a marca, ele mantinha há 12 anos uma grife feminina, a Belui. A percepção de que o homem é “maravilhoso” se deu após o retorno de uma viagem que Luiz fez ao exterior.

Filho e neto de operários da fábrica de tecidos Nova América, Luiz descobriu desde cedo sua vocação para a moda. Aos 9 anos, ele confeccionou um vestido para a irmã ir à missa. E foi graças ao seu talento que conquistou as passarelas do Brasil e do mundo.

Durante o Plano Collor, a Mr. Wonderful fechou as portas e embora tenha ensaiado um retorno em 2007, ainda não conseguiu se recuperar. Mas, Luiz, que hoje trabalha como estilista e designer da comissão de frente da Mangueira e de grandes artistas, avisa que não tem mais planos para a marca. Seu foco está voltado para um grande projeto dedicado a comunidades carentes.

Conheça um pouco mais da história e do pensamento deste ícone da moda, através da seguinte entrevista, concedida com exclusividade ao portal Baixada Fácil.


Você revolucionou a moda masculina no Brasil, com a Mr. Wonderful. Antes disso você tinha uma grife feminina. O que o levou a fazer moda para homens?
Fiz uma viagem para Nova York e, chegando lá, vi o Brasil de fora para dentro. É algo muito interessante estar fora do contexto do seu dia-a-dia. Eu já tinha todas essas informações de que o homem estava acuado, enfrentando um problema, pelo fato da mulher ir para o mercado de trabalho, de não ter uma vida toda dedicada a ele, de está competindo com ele. Percebi também que tudo era feminino, tudo era pra elas, nada pra eles. Quando voltei desta viagem, pensei em uma forma de atacar isso, de encontrar um caminho, aí pensei que o homem era Wonderful, que era maravilhoso. Como o homem brasileiro é cheio de complexos, pensei em atacar o comportamento. Mas não adiantava apenas dizer que ele era maravilhoso, então eu tive que fazer um tratamento psicológico na cabeça dele e daí abri uma loja em Ipanema, chamada “Clínica de Moda”. Nessa “Clínica”, criei um mini-hospital, com todo um mobiliário de clínica, com moda muita arrojada, pra provocar. Uma idéia totalmente em cima do comportamento. Eu colocava cores que o homem não aceitava, por que eu o peguei totalmente complexado e influenciado pela moda européia. O brasileiro se vestia como se fosse italiano. Os garotos pareciam senhores, só podiam usar azul marinho, cinza... Era muito clássico, isso não combinava com o Brasil, já que é um país tropical, onde se pode andar mais descontraído. Eu parti para fazer provocações com eles. Isso chocou. Recebi telegramas do Brasil inteiro. A TV Globo fazia entrevistas com mulheres, perguntando se os maridos usariam aquilo ou não.

Como os críticos viam essa moda revolucionária?
Na época, a mídia se dedicava pouco à moda, havia poucas revistas e os jornais precisavam de agilidade. Como não era sempre que acontecia um movimento, algo diferente na moda, os jornalistas preferiam cobrir política, o geral, entre outros. As poucas que cobriam moda tornaram-se muito amigas nossas, parecia um clube de comadres. A gente queria ter críticos e não tinha, ou seja, você não sabia nem se estava fazendo a coisa direito, de bom gosto, se desenvolvendo... Eu até sabia, pois já tinha começado a vender para o estrangeiro. A moda é algo que vai virando um objeto internacional e nessa área você não pode pensar pequeno.

Como foi a recepção à marca no exterior?
A reação foi com o nome. Os ingleses não queriam admitir que eram “maravilhosos”, porque eles tinham um compromisso com os antepassados. Tive um amigo estrangeiro que dizia que adorava o Brasil, porque o brasileiro não tem compromisso com nada. Ele falava: “tudo é novo para ele e nós temos compromisso com a tradição, nada pode, isso não é assim...”. Eu tinha franquias, pessoas que vieram aqui, viram o que eu fazia e abriam uma loja. Assim, fiz lojas na Holanda, fiz um showroom em Nova York, tive três lojas em Portugal, duas em Lisboa e uma na Cidade do Porto. Houve um fim de semana em que apareci em oito veículos de imprensa, inclusive um no horário nobre, no qual falei da moda brasileira. Ganhei também um prêmio como o melhor estilista em Portugal naquele ano.

Onde você buscava inspiração para as coleções da Mr. Wonderful?
Eu lia bastante, de tudo. Eu participava muito da vida das pessoas e observava o comportamento delas. Sempre procurando ter um tema, um ponto de partida. Eu usava muito o artista. Inspirava-me no futebol, na música. Eu fazia roupa para Caetano Veloso, Gilberto Gil, para os principais atores da televisão, cinema, teatro... essas manifestações todas onde a moda se inseria. Eu fazia parte disso, e a inspiração vinha muito daí.

Você fechou a Mr. Wonderful em 90, na época do Plano Collor...
Veio o plano Collor, em 1992. Ele abriu as exportações da noite para o dia e isso me prejudicou.

Como a marca está hoje?
Eu a reabri, mas não deu certo. Porque quem cuidava da parte financeira eram pessoas que queriam um retorno muito rápido e com a moda este retorno é a longo prazo. O Brasil mudou muito, se renovou. Hoje, na verdade, agente não é conhecido como era naquele momento. A parte financeira queria que eu comprasse uma moda pronta em São Paulo e colocasse para vender na minha loja. Aí falei que não venderia roupeca. Os meus clientes artistas, intelectuais iam falar “Luiz, mas essa roupa não foi você quem desenhou, não foi você quem fez”. Eles, na verdade, eram de segmentos que ganhavam dinheiro muito rápido e em um determinado momento quiseram fazer parte desse mundo fascinante que é o da moda.

E você tem outros planos para a marca?
Não, porque na verdade hoje eu sou o Luiz Futebol Clube (risos). Porque eu faço tudo que me solicitam e que eu acho interessante. Meu projeto futuro é fazer um trabalho vinculado com a parte social, com comunidades carentes. Tenho um projeto com uma abrangência muito grande que estou negociando com autoridades, parte governamental e parte privada, pra fazer este trabalho. Está caminhando e brevemente teremos novidades nesta área.

Como você ver a moda masculina hoje?
A moda masculina chegou a um patamar na qual existe mais uma diferenciação técnica, em material e forma, do que em criatividade. Porque a globalização veio definitivamente para ficar, então a informação mudou de lugar, qualquer pessoa através da internet pode saber o que se está usando em outros lugares.

O que você acha do modo de se vestir na Baixada Fluminense?
Eu acho que o subúrbio se veste mais fashion do que a Zona Sul do Rio, por exemplo. Lá, inventaram uma coisa chamada de moda carioca, que é uma descontração, é o comportamento, a forma de ser. Então, o carioca se veste com uma camiseta desbotada, uma calça que não ta nem aí, uma sandália de dedo e vai para os lugares. Se você for para lá produzido, bem arrumado, você se sente um estranho fora do ninho. Aqui no subúrbio eu vejo uma moda muito mais fora do padrão do que na Zona Sul. As pessoas ousam mais.

Qual a dica que você dá para quem quer se firmar como um grande estilista?
O ponto de partida é ter talento. Mas, é importante procurar uma escola para aprender a parte técnica e olhar muito para dentro de si, para não sofrer toda a influência da internet, da globalização.

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Acompanhe os comentários...

Total: 1 comentários


  • 19 de março de 2012 - 21:39
    monika mello diz:
    Ola eu sou uma fã do Luiz,sempre comprei dentro do possivel algo de sua grife,que amo de paixão,sou moradora de fragoso ele tinha uma confecção aki mais parece que foi fechada,queria saber dele,então vi esta reportagem,por favor se sabem algo desse homen maravilhoso que via a alma das pessoas,me enviem noticias,....sem agradeço... Monika mello.