A Arte da Desmistura | 19 de junho de 2015 - 21:20

Um bode dentro de casa

     Na categoria de parábolas populares, resgatamos uma que ilustra bem uma situação comum em nossas vidas atribuladas e cercadas de invasores.


     Um médico do interior, um dia, foi visitado pela sétima ou oitava vez por um lavrador que se queixava da sua casa, da sua vida, do seu trabalho, da sua solidão...


     O médico, já incomodado, sugeriu ao primário ancião que colocasse um bode dentro de casa.


     O lavrador reagiu:


     - Mas doutor, botar um bode dentro da minha casa?


     - É, um bode. E um bode marrento, de preferência.


     - O senhor está brincando, doutor.


     - Não estou brincando não, bote o bode dentro de casa e volte daqui a duas semanas.


     Duas semanas depois, o ancião voltou.


     - E aí, melhorou? – Perguntou o médico.


     - Piorou, e muito, doutor.


     - Então, agora ponha em casa, também, uma cabra. O bode deve estar se sentindo sozinho. Com uma cabra tudo deve melhorar.


     - Mas doutor, tá uma sujeira danada, uma fedentina... O bicho faz de tudo dentro da minha casa. Não adianta limpar que ele suja tudo de novo, sobe na minha cama. E, quando eu consigo deixar quase tudo em ordem, o cheiro do bicho não me deixa dormir. Ele me atrapalha de comer...


     - Mas é assim mesmo. Vá e só volte quando a cabrita tiver dado cria.


     - Doutor, mas o senhor quer acabar com a minha vida de vez?


     - Meu amigo, aqui o médico sou eu! Se não quer ser tratado...


     - Tá bom ,doutor. O senhor é quem sabe.


     Passado o tempo combinado, o nosso amigo lavrador volta ao consultório quase que chorando, diante do médico.


     - Minha vida tá um inferno. Nasceram dois cabritinhos. Tem bicho na sala, no quarto, no banheiro. Tem sujeira pra todo lado. Minha cama é um chiqueiro. Eles comem da minha comida, pulam na minha cama, comem os papéis onde eu anoto as compras que eu tenho que fazer... Doutor... O que é que eu faço agora?


     - Você pode botar o bode, a cabra e os cabritinhos todos pra fora de casa.


     - Posso, doutor?


     - Pode. E pode voltar depois de amanhã, pra gente resolver de vez a sua situação.


     No dia marcado, o lavrador, com um sorriso nos lábios, banho tomado, cheirinho de água de colônia, voltou ao consultório.


     - E aí, como vai a sua vida? Como está a sua casa?


     - Doutor, minha casa é o paraíso.      


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Sobre o autor

Ivan Wrigg Moraes é poeta, psicólogo, compositor, analista de sistemas, professor e articulista. Publicou cinco livros de poesia e uma antologia poética, dois de literatura infantil, uma prosa filosófica e quatro livros sobre história do teatro, além de ter gravado dois CDs solo (Lenha na Fogueira e Se Rolar, Rolou). Recebeu prêmio da UBE para o livro 3 x 4, de poesias.

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