Olho vivo, faro fino | 24 de agosto de 2015 - 12:59

Suvaco de Cobra, o reduto do choro carioca

Reduto ligado ao gênero choro, criado no subúrbio da Leopoldina, no bairro da Penha Circular.


No começo da década de 1960 o bar Santa Terezinha, situado à Rua Francisco Ênes, passou a ser o ponto de encontro de amigos da localidade onde se conversavam vários assuntos. O grupo manifestava a sua preferência pela música, que, na época, contava apenas com dois músicos amadores, os irmãos Joyr Nascimento (violão sete cordas) e Joel Nascimento (cavaquinho).


As reuniões aconteciam aos domingos na parte da manhã, sempre acompanhada pelo gênero choro, sua principal atração, porém, juntavam-se ao grupo alguns seresteiros locais. Por essa época, o bar Santa Terezinha foi ficado mais conhecido como um reduto de choro autêntico e espontâneo. A partir do ano de 1969, o barzinho de duas portas, que tinha como dono Manoel Ferreira da Silva (30/06/1939 - 22/07/2015) ganhou o nome de Suvaco de Cobra, dado pelo seresteiro José Gomes (Zé Bode).


Entre 1969 e 1975 o Suvaco de Cobra passou a ser frequentado também pela dupla Zé da Velha e Rubinho do Pistom, Grupo Chapéu de Palha, Abel Ferreira, Dino Sete Cordas, Índio do Cavaquinho, Jorginho do Pandeiro e Motinha do Cavaquinho, entre outros trazidos pelo violonista Joyr Nascimento. A partir do ano de 1974, quando Joel Nascimento passou a gravar, já como bandolinista, no disco "E lá vou eu", de João Nogueira, o Suvaco de Cobra ganhou nova dimensão de propaganda, graças ao produtor do disco, Adelson Alves, radialista da Rádio Globo AM, que citava o bar no programa "Amigo da Madrugada":


 


"Alô Joel de Bandolim! Alô Suvaco de Cobra!"


 


Logo após tal citação o radialista colocava as duas faixas nas quais o bandolinista havia trabalhado: "Braço de boneca" (João Nogueira e Paulo César Pinheiro) e "De rosas e coisas amigas" (Ivor Lancellotti). Desta forma, o bar, já com o novo nome "Suvaco de Cobra", ganhou projeção nacional e reconhecimento na mídia, em matérias da imprensa carioca, tais como Jornal do Brasil, jornal O Globo e revistas como "Ele Ela", entre outras.


A primeira reportagem sobre o bar foi a do jornalista Juarez Barroso, no "Jornal do Brasil - Caderno B", em 25 de dezembro de 1975, intitulada "O choro vem da Penha - É choro de botequim", da qual destacamos o seguinte trecho:


 


"O pitoresco Suvaco de Cobra, integrado por, entre outros, Joel do Bandolim, seu irmão Joyr (violão de sete cordas), Zé da Velha (trombone), Rubinho (pistom). Aqui, a história dessa gente, ou melhor, dos seus domingos, quando o choro domina no subúrbio, solene e brincalhão, venerando e ágil".


 


No ano de 1977, para o lançamento do disco "Chorando pelos dedos", de Joel Nascimento, Lena Frias jornalista do "Jornal do Brasil - Caderno B" publicou uma matéria em 7 de janeiro de 1977 com o título "Joel, um bandolim faz com choro a nova festa da Penha", o que atraiu diversas personalidades para o evento. Estavam presentes no lançamento, no reduto Suvaco de Cobra, Elizeth Cardoso, João Nogueira, Edmundo Souto, Paulo Moura, Beth Carvalho, o advogado Nílton Feital (pai do poeta Paulo César Feital), Índio do Cavaquinho, Zé da Velha, Grupo Chapéu de Palha, os irmãos Waldir Silva e Walter Sete Cordas, Arlindo do Cachimbo, Os Carioquinhas, Dino Sete Cordas, Raphael Rabello, Jairo do Violão, além de jovens chorões e o jornalista Sérgio Cabral que, entre outras coisas, afirmou:


 


"Festa popular igual a esta eu só tenho conhecimento de uma parecida, para o cantor Orlando Silva".


 


Vale lembrar que no referido LP constava a faixa "Chorinho do Suvaco de Cobra", composta pelo clarinetista Abel Ferreira, também frequentador assíduo do bar.


O evento foi registrado pela imprensa escrita do Rio de Janeiro (jornais JB e O Globo) e São Paulo (Folha de São Paulo) e ainda, pela mídia televisiva, tais como TV Globo e TV Rio, entre outras emissoras do Rio de Janeiro.


O Suvaco de Cobra passou a ser reconhecido como ponto turístico do Rio de Janeiro e com renome internacional, atraindo vários turistas do mundo inteiro.


Contudo, o auge deste reduto de choro não durou muito, como ficou registrado em matérias de jornais da época. Em uma delas é relatada a tal decadência do movimento.


Em dois de setembro de 1977 as jornalistas Diana Aragão e Lena Frias, na coluna "Com sotaque de gíria", do "Jornal do Brasil - Caderno B" - criticavam a perda de essência e a descaracterização do reduto, isto porque o movimento passou a ser coordenado pelo ex-policial De Paula, que também registrou em seu nome a marca "Suvaco de Cobra", o que deixou muitos músicos e visitantes contrariados. Neste período, vários frequentadores (músicos e admiradores) preferiram se afastar do local, como ficou registrado na referida matéria, da qual destacamos o seguinte trecho:


 


"Como tudo que é bom atrai os imitadores e toda arte incita ao pastiche, o Sovaco de Cobra, respeitável núcleo de choro do bairro da Penha (Rua Francisco Ênes) não escapou à lamentável e grosseira imitação: gente inescrupulosa, sem respeito pela arte, artista ou público, passou a usar o nome do Suvaco de Cobra, à revelia dos autênticos chorões da Francisco Ênes, para fins comerciais, beneficiando-se da penetração do verdadeiro Suvaco junto ao público e falsificando as intenções do grupo de Joel do Bandolim".


 


Na segunda metade da década de 1970 e no início da década de 1980, o ex-policial De Paula, que tocava surdo, intitulando-se dono da marca Suvaco de Cobra, abriu filiais do Suvaco de Cobra, na Rua Ênes Filho (Penha Circular) e no bairro de Vila Isabel.


Em decorrência de vários aspectos negativos, com o não pagamento de músicos, o uso de máquinas de jogos de azar no local, a perturbação sonora noturna e semanal, além do não acatamento pelos moradores da região da Penha Circular, a primeira filial aberta pelo ex-policial, na Rua Ênes Filho, caiu em declínio, sendo fechada. Logo após, De Paula abriu outra filial no bairro de Vila Isabel, que também não obteve sucesso e o Suvaco de Cobra foi extinto ainda década de 1980.


 


No ano de 2005 os integrantes do grupo Trio Madeira Brasil, Elza Soares, Teresa Cristina, Ademilde Fonseca, Zezé Gonzaga, Marcos Suzano, Grupo Semente, Paulo Moura e Yamandú Costa, entre outros, deram depoimentos sobre o gênero choro para o cineasta finlandês Mika Kaurismäki, radicado no Rio de Janeiro desde o início da década de 1990, para o documentário "Brasileirinho", com roteiro de Marco Forster. O cineasta também colheu depoimento de Joel Nascimento sobre o bar Suvaco de Cobra, em frente à antiga sede, na Rua Francisco Ênes, na qual o músico relatou fatos e datas referentes ao reduto. O filme foi lançado no "Fórum Internacional do Novo Cinema de Berlim" neste mesmo ano.


 


BIBLIOGRAFIA CRÍTICA:


 


AMARAL, Euclides. Alguns Aspectos da MPB. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2008. 2ª ed. Esteio Editora, 2010. 3ª ed. EAS Editora, 2014.


ABREU, Daisy Cury de. "Casa de Joel Nascimento". Revista Ele Ela, 1977.


ARAGÃO, Diana e FRIAS, Lena. "Com sotaque de gíria". Rio de Janeiro: Jornal do Brasil - Caderno B, 2/9/1977.


BARROSO, Juarez. "O choro vem da Penha - É choro de botequim". Rio de Janeiro: Jornal do Brasil - Jornal do Brasil - Caderno B, em 25 de dezembro de 1975.


FRIAS, Lena. "Joel, um bandolim faz com choro a nova festa da Penha". Jornal do Brasil - Caderno B, 7 de janeiro de 1977.


FOLHA DE SÃO PAULO. "Lançamento do disco - Chorando pelos dedos". São Paulo: Janeiro de 1977. Reduto ligado ao gênero choro, criado no subúrbio da Leopoldina, no bairro da Penha Circular.


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Sobre o autor

Euclides Amaral é poeta, letrista, produtor e pesquisador de MPB. Carioca, formado em Comunicação Social, publicou os livros de poesias Sapo c/ Arroz (1979/2ª ed. 1984), Fragmentos de Carambola (1981), Balaio de Serpentes (1984), O Cão Depenado (1985), Sobras Futuristas (1986) e Cynema Bárbaro (1989). Lançou Emboscadas & Labirintos (contos/Editora Aldeia, 1995), Alguns Aspectos da MPB (ensaios/2008/2ª ed. Esteio Editora, 2010 - 3ª ed. EAS Editora, 2014) e “O Guitarrista Victor Biglione & a MPB” (perfil artístico/Edições Baleia Azul, 2009/2ª ed. Esteio Editora, 2011 - 3ª ed. EAS Editora, 2014). Entre 1999 e 2015 atuou como pesquisador musical da Biblioteca Nacional, FAPERJ, PUC-Rio, FINEP, CNPq e Instituto Cultural Cravo Albin produzindo verbetes para o site dicionariompb.com.br, também utilizados no Dicionário Houaiss Ilustrado Música Popular Brasileira (Editora Paracatu, 2006). Colaborou em jornais e revistas com textos sobre a MPB. Publicou poemas em fanzines e antologias por várias editoras. A partir de 1978 produziu cerca de 30 discos para selos, gravadoras e artistas independentes. Tem registradas em CDs mais de 60 composições, entre gravações e regravações, em parcerias com Cacaso, Carlos Dafé, Claudio Latini, Heloisa Helena, Jô Reis, Lúcio Sherman, Marcelo Peregrino, Marko Andrade, Reizilan, Renato Piau, Reppolho, Sidney Mattos e Xico Chaves. Entre seus intérpretes constam Anna Pessoa, Banda Du Black, Carlos Dafé, Claudio Latini, Elza Maria, Heloisa Helena, Luiz Melodia, Marcelo Peregrino, Mário Bróder, Marko Andrade, Pecê Ribeiro, Reizilan, Renato Piau, Reppolho e Victor Biglione. Gravou poemas em seis CD de parceiros e em seu disco solo “Quintal Brasil - poemas, letras & convidados”, (Selo Ipê Mundi Records/Noruega, 2012), com a participação de parceiros e intérpretes. No ano de 2013, pela Casa 10 Comunicação, publicou “Poesia Resumida - Antologia Poética 1978/2012”, com 2ª edição em 2014, pela EAS Editora. Mais em dicionariompb.com.br

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O LIVRO "O Guitarrista Victor Biglione" também pode ser baixado de graça clicando aqui.

O verbete do guitarrista Victor Biglione pode ser baixado clicando aqui.

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