Sena em Cena | 15 de outubro de 2017 - 13:45

SOCIEDADE - NOVELA - SOCIEDADE

Cheguei à conclusão de que não posso exigir que a arte pare no tempo, sob pena de se tornar fútil; superficial; sem qualquer compromisso com as realidades contemporâneas. A dramaturgia, por exemplo, quando não se propõe a exibir histórias de épocas passadas ou de cunho estritamente religioso, tende a se tornar alienada, fora de propósito e contexto, caso exceda nos véus.  A menos que haja intenção dos autores, por questões de humor, fantasia ou romance atemporal.


Como não dá para enfiar computadores, smartphones, armas nucleares e comportamentos ultramodernos em histórias de séculos, quiçá milênios passados, também não dá para fazer o oposto nas histórias de nosso tempo. Afinal, a arte existe em razão da sociedade; não a sociedade em razão da arte.


Excetuando os casos de fanatismo artístico, em que a falta de compromisso com crianças, adolescentes e outros vulneráveis interfere perniciosamente no processo natural e gradativo de formação ou assimilação, não acho nada imoral. Nem contradidático. Nem escandaloso. Na arte, no entretenimento nem na lida interpessoal e consensual. É só uma questão de achar ou não por bem consumir, e de querer ou não, de forma explícita, inequívoca e decidida, interagir com o outro. Tudo com discernimento próprio; não de acordo com regras, prismas ou imposições de que ou quem quer que seja.


É claro que havemos de repudiar qualquer manifestação artística e de outras naturezas, se houver imposição a quem não queira ou incitação ao ódio; ao preconceito; à exclusão. Mas confesso que o que tenho visto é que a mídia, em especial a dramaturgia, na maioria das vezes tem feito, com ou sem eficiência e sucesso, é exatamente pregar a compreensão, a tolerância, o respeito e os novos olhares sobre as diferenças cada vez mais evidentes. Com vícios, distorções e falhas, mas cabe às famílias aplicar seus filtros, propor as devidas reflexões, assessorar seus vulneráveis para o entendimento viável do que assiste. Ou proibir a audiência, pelo reconhecimento da incapacidade de assessorar.


O que nenhuma pessoa, família, grei, organização ou grupo te o direito de fazer é decidir o que os outros podem ou não podem, com base nas suas proibições internas, por moralismo; fanatismo; ideologia; crença; imposição de cultura ou tradição.


Que se denuncie o que fere a lei; o que é crime ou contravenção. Mas ninguém se julgue apto a reger a sociedade; querer que todos vivam dentro de seus moldes ou virem suas ovelhas compulsórias. Voltando à dramaturgia, chegamos ao temo em que, por falso moralismo e ditadura de fé, como se já não bastassem os preconceitos religioso, de gênero e até racial, temos que conviver com o preconceito pelos programas que assistimos, o canal de televisão que preferimos, o jornal que lemos, os sites que acessamos e até as músicas de nossa expressa preferência.


Na contramão do que muito cidadão tem feito, se um dia me acudisse a ideia de mover um processo judicial de natureza pública, baseado em influências de comportamentos, eu preferiria processar a sociedade, da qual faço parte, pelas más influências que ela tem levado às telenovelas. Repito que a arte existe em razão da sociedade; não a sociedade em razão da arte.


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Sobre o autor

Demétrio Sena. Nome completo: Demétrio Pereira Sena. Morador de parque das Flores em Magé. Autor de nove livros. Fotógrafo. Arte-educador (animador cultural) da Secretaria Estadual de Educação. Palestrante e oficineiro (de modalidades literárias, origami, bola mania, impostação de voz e fotografia) em escolas, empresas e outros ambientes.

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