Olho vivo, faro fino | 31 de agosto de 2014 - 13:05

Rui de Carvalho e nossas lendas amazônicas

O cantor, compositor e artista plástico Rui de Carvalho tem cacife para falar da Região Amazônica, nasceu em Porto Velho, no Estado de Rondônia e por isso lançou, em 1982, o LP “Enfieira”, no qual passava em revista a topografia, a culinária e as danças, entre outros aspectos da região. Vale lembrar que o termo “Enfieira” diz respeito à cordinha – extraída da folha da palmeira Najá - na qual são enfiados pelas guelras os peixes, sendo também um neologismo local (ainda fora do Aurélio) em verbo com o significado de “passar por dentro”, no particípio: onde são enfieirados. O disco também vinha recheado de craques musicais como Paschoal Perrota, Rildo Hora, Jorge Degas, Ruy Quaresma, Luizão Maia, Zeca do Trombone, Chiquinho do Acordeom, José Alves, Tereza Quaresma e o grupo vocal Céu da Boca. Composições como "Canela, coceira e urtiga", "Rio Madeira, Rio Negro", "Lenda do Pirajurú" (c/ Augusto Jatobá) e a faixa-título "Enfieira" (c/ Paulo Levita), aludiam à região e a algumas de suas características, um tanto quanto desconhecidas fora dela, diga-se de passagem.

Em 2006 suas composições "Enfieira" e "Lenda do Pirajurú" foram incluídas no musical "O Canto das Criaturas", com direção musical de Ronaldo Miragaya e direção cênica de Ciro Barcelos. No ano seguinte, em 2007, interpretou a faixa "Rios do Brasil", de Augusto Jatobá, no CD "Caminhos das águas", disco do qual participaram Gilberto Gil, Guilherme Arantes, Sá & Guarabyra, Xangai, Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho, Teresa Cristina e Grupo Semente.

Sempre ligado às questões ambientais, no ano de 2013, em seu segundo trabalho solo nesta seara, lançou “Águas do Brasil”, desta vez com o foco direcionado às águas, em um disco temático e para-didático, no qual falou, com a maestria peculiar, das lendas, da fauna, da flora e dos rios, fazendo uso de gêneros tão diversos como toadas, baiões, xótis e samba-canções, em melodias contempladas por letras próprias ou em parcerias com o cartunista e letrista Bruno Liberati e a poeta Verluci Almeida. Todas com foco em um dos quatro elementos da natureza.

Agora, em 2014, o compositor aprofundou a questão e fez uso de parte do arquétipo lendário da região, escolhendo dez histórias e compondo para elas, dez músicas siamesas e simbióticas, mantendo também a função aglutinativa dos trabalhos anteriores. Digo isso porque desta vez convidou para dividir o disco a atriz e contadora de história Silvia Ferraz, na narração das 10 lendas.

De acordo com o autor:

“Lendas são histórias contadas e transmitidas através dos tempos. Misturam fatos reais e históricos com frutos da fantasia, procurando explicar eventos misteriosos ou sobrenaturais. Foi lendo o livro ‘O Caríua e outros Contos Amazônicos’, do escritor e professor Altino Berthier Brasil, que voltei a me interessar por esse tema tão fascinante”.

No CD-livro “Lendas Amazônicas”, através de composições e narrações, Rui de Carvalho resgatou algumas lendas da região interpretando as faixas “Cobra Grande”, “Mapinguari”, “Sapu-Aru”, “Cobra Norato”, “Boto”, “Rudá”, “Curupira” e “Matinta Pereira”, e ainda a composição “Sapo-Cururu”, de autoria de seu irmão, o violonista Marciso Carvalho. Também participaram do trabalho os músicos Flávio Pereira (direção musical, arranjos, violões e baixo), Sandra Serrado (voz em ‘Iara’, parceria com o maestro Perna Fróes), Alceu Pery (flauta), Zeppa Souza (guitarra) e Diana Ferraz em “Vitória-Régia”, uma bela surpresa e promissora cantora de voz angelical.

Sobre o trabalho destaco um trecho da apresentação do escritor e jornalista manauara Mário Adolfo:

“É isso que Rui de Carvalho - que já foi o guerreiro Pena Branca e hoje é um sábio pajé - anda fazendo pelo mundo: cantando, pintando e contando lendas, que são bem mais interessantes que esse mundo em que estamos vivendo. Sentado na areia da praia da Ponta Negra, em 1983, vi o Rui de Carvalho - no retorno à Manaus, 15 anos depois - dedilhar o violão e cantar pela primeira vez ‘Rio Negro’, uma de suas mais belas canções. Tinhas os olhos perdidos no espelho de águas escuras do nosso rio descobrindo que o seu negro ‘não é ausência de cor’. Sua alma, naquele momento, com certeza estava se embrenhando na floresta que nos cercava, reencontrando o Curupira, Matinta Pereira, Juma, Boiuna, Iara, Boto e até o Uirapuru que lhe ensinou a tirar sons das árvores e dos ventos”.

No livreto também foram inseridas ilustrações com as 10 telas sobre as lendas, pintadas por Rui de Carvalho (Acrílica s/ tela 60x80cm).

Enfim... as lendas amazônicas agora estão muito mais próximas de nós e, principalmente, de alunos da rede pública, que além dos livros do etnógrafo Luís da Câmara Cascudo também podem contar com esse trabalho memorável e imprescindível de Rui de Carvalho.
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Sobre o autor

Euclides Amaral é poeta, letrista, produtor e pesquisador de MPB. Carioca, formado em Comunicação Social, publicou os livros de poesias Sapo c/ Arroz (1979/2ª ed. 1984), Fragmentos de Carambola (1981), Balaio de Serpentes (Poemas & Letras-1984), O Cão Depenado (1985), Sobras Futuristas (1986) e Cynema Bárbaro (1989). Lançou Emboscadas & Labirintos (contos/Editora Aldeia, 1995), Alguns Aspectos da MPB (ensaios/2008/2ª ed. Esteio Editora, 2010 - 3ª ed. EAS Editora, 2014), “O Guitarrista Victor Biglione & a MPB” (perfil artístico/Edições Baleia Azul, 2009/2ª ed. Esteio Editora, 2011 - 3ª ed. EAS Editora, 2014), “Desafio das Horas” (poesias e letras), em 2013, pela Casa 10 Comunicação, e “Poesia Resumida - Antologia Poética 1978/2012”, também em 2013 pela mesma editora e com 2ª edição em 2014, pela EAS Editora. Entre 1999 e 2017 atuou como pesquisador musical da Biblioteca Nacional, FAPERJ, PUC-Rio, FINEP, CNPq e Instituto Cultural Cravo Albin produzindo verbetes para o site dicionariompb.com.br, também utilizados no Dicionário Houaiss Ilustrado Música Popular Brasileira (Editora Paracatu, 2006). Colaborou em jornais e revistas com textos sobre a MPB. Publicou poemas em fanzines e antologias por várias editoras. A partir de 1978 produziu cerca de 30 discos para selos, gravadoras e artistas independentes. Tem registradas em CDs mais de 60 composições, entre gravações e regravações, em parcerias com Aljor, Big Otaviano, Bóris Garay, Cacaso, Carlos Dafé, César Nascimento, Claudio Latini, Cristina Latini, Eliane Faria, Elza Maria, Helô Helena, Ivan Wrigg, Jaime Pontes, Jênesis Genúncio, Jô Reis, Joel Nascimento, Lúcio Sherman, Marcelo Peregrino, Maria Tereza, Marko Andrade, Milton Sívans, Moisés Costa, Olten Jorge, Paolo Vinaccia, Paulo Renato, Reizilan Cartola Neto, Renato Piau, Reppolho, Rubens Cardoso, Sérgio Gramático Júnior, Sidney Mattos, Silvana Elizabeth e Xico Chaves. Entre seus intérpretes constam, além de muitos de seus parceiros citados, André Henriques, Anna Pessoa, Banda Du Black, Bernardo Diniz, Ceiça, Denise Krammer, Edir Silva, Grupo Mamulengo, Jane Reis, Jorge de Souza, Luiz Melodia, Luiza Dionizio, Mário Bróder, Martha Loureiro, Namay Mendes, Paulinho Miranda, Pecê Ribeiro, Solange Pereira e Victor Biglione. Gravou poemas em seis CD de parceiros e em seu disco solo “Quintal Brasil - poemas, letras & convidados”, (Selo Ipê Mundi Records/Noruega, 2012), com a participação de parceiros e intérpretes. Em 2017 finalizou o CD “Plural – letras, poemas, parcerias & intérpretes”, com a participação de parceiros e intérpretes. Mais em dicionariompb.com.br O LIVRO ALGUNS ASPECTOS DA MPB pode ser baixado de graça clicando aqui.

O LIVRO "O Guitarrista Victor Biglione" também pode ser baixado de graça clicando aqui.

O verbete do guitarrista Victor Biglione pode ser baixado clicando aqui.

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