Olho vivo, faro fino | 26 de dezembro de 2014 - 11:59

Resenha de “O Livro das Estações, de Fernando de Oliveira”

Em uma festa na casa do Ricardo Cravo Albin, apresentado por nosso amigo comum o poeta Sergio Natureza, conheci o Fernando de Oliveira. Fiquei surpreso e estarrecido ao perceber o seu conhecimento em relação às plantas e logo pensei que fosse, além de grande letrista, também botânico - depois descobri que era médico veterinário -. À medida que caminhávamos por várias partes do ambiente, que ainda detém boa parte intacta da Mata Atlântica original, ele nos falava das flores, das árvores, das podas, seus nomes técnicos, seus tempos de floração, as estações etc.


 


Do Fernando de Oliveira já conhecia algumas de suas letras com melodias da Rosa Passos, de quem é o parceiro mais constante, composições emblemáticas como “Verão”, “Roseira” e “Pequena música noturna”, incluídas neste seu primeiro volume de poesias “O Livro das Estações”, repleto de outros textos, também melopeicos e no melhor da tradição dos poetas provençais do século XII (Arnaut Daniel, Bertran de Born, Marcabru, Bernart de Ventadorn e Guilhem de Peitieu) e da poesia trovadoresca ibérica do século XIII (Dom Diniz, Dom Sancho I e bem depois, no século XVI, em Luis de Camões, Bernadim Ribeiro e Sá de Miranda). Outras características dessas mesmas escolas, implícitas em sua poética, foram acentuadas no prefácio do poeta-letrista Ildázio Tavares:


 


"Primeiro, a configuração de uma poesia que se enraíza na tradição popular - que dela se reapropria para lhe dar um sentido novo, evidentemente erudito. Assim o faz Fernando de Oliveira. Segundamente, o exercício da síntese que, sem ele, não há poesia - há algaravia - e Fernando sabe disso e procura aquele desiderato, talvez supremo do verso que Ezra Pound definiu tão bem: dizer muito com poucas palavras"


 


Das três categorias concebidas por Ezra Pound: a logopeia (a dança do intelecto entre as palavras); a fanopeia (um lance de imagens sobre a imaginação visual) e a melopeia (propriedade musical que dá sentido às palavras e orienta o seu significado), com certeza, é nesta última que a maioria dos poetas brasileiros se enquadram, principalmente, os que usam e abusam das melodias populares, tais como Orestes Barbosa e Vinicius de Moraes, e da geração do Fernando de Oliveira: Paulo César Pinheiro, Capinan, Aldir Blanc, Cacaso, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Sergio Natureza, Salgado Maranhão e Xico Chaves, só para citar alguns craques dessa imensa seleção de letristas que navegam nas melodias para nos legarem seu recado poético.


 


De outra feita, sua parceira Rosa Passos percebeu também a sinestesia nos textos:


 


"A poesia de Fernando é leve, livre, e tem movimento, cor e beleza, como as estações do ano”


 


São textos que tanto usam a fanopeia, como o palpável nas relações da forma, do som e das cores, como no poema “Frutos de inverno”, no qual dá para sentir o cheiro das frutas perfiladas pelo poeta, diga-se de passagem, bem brasileiras, resquícios de um bem apreendido Catulo da Paixão Cearense.


 


“A brisa está cheirando a cajarana,


laranja, tangerina, jenipapo,


compotas de acerola e de banana,


goiaba, cambuí, limão do mato”


 


O livro é dividido em quatro blocos e tem as estações do ano como eixo de articulação da temática, em poemas que trazem a musicalidade intrínseca em sua argamassa e feitio, peculiaridade de poetas ligados ao popular e à oralidade.


 


A borda pode limitar o prato, mas, não limita a fome e Fernando de Oliveira é um poeta desobediente da mesmice, um new-aedo que vive cantando estórias... Acho até que, com essa coletânea, inventou uma quinta estação, uma espécie de “Estação Enlevo”, na qual nos deixa esperando, ávidos, pelo próximo livro.


 


 


Euclides Amaral é poeta-letrista


e pesquisador de MPB do Instituto Cultural Cravo Albin


 


O Livro das Estações, de Fernando de Oliveira


Edição: Idea Design, Salvador, 2014


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Sobre o autor

Euclides Amaral é poeta, letrista, produtor e pesquisador de MPB. Carioca, formado em Comunicação Social, publicou os livros de poesias Sapo c/ Arroz (1979/2ª ed. 1984), Fragmentos de Carambola (1981), Balaio de Serpentes (1984), O Cão Depenado (1985), Sobras Futuristas (1986) e Cynema Bárbaro (1989). Lançou Emboscadas & Labirintos (contos/Editora Aldeia, 1995), Alguns Aspectos da MPB (ensaios/2008/2ª ed. Esteio Editora, 2010 - 3ª ed. EAS Editora, 2014) e “O Guitarrista Victor Biglione & a MPB” (perfil artístico/Edições Baleia Azul, 2009/2ª ed. Esteio Editora, 2011 - 3ª ed. EAS Editora, 2014). Entre 1999 e 2015 atuou como pesquisador musical da Biblioteca Nacional, FAPERJ, PUC-Rio, FINEP, CNPq e Instituto Cultural Cravo Albin produzindo verbetes para o site dicionariompb.com.br, também utilizados no Dicionário Houaiss Ilustrado Música Popular Brasileira (Editora Paracatu, 2006). Colaborou em jornais e revistas com textos sobre a MPB. Publicou poemas em fanzines e antologias por várias editoras. A partir de 1978 produziu cerca de 30 discos para selos, gravadoras e artistas independentes. Tem registradas em CDs mais de 60 composições, entre gravações e regravações, em parcerias com Cacaso, Carlos Dafé, Claudio Latini, Heloisa Helena, Jô Reis, Lúcio Sherman, Marcelo Peregrino, Marko Andrade, Reizilan, Renato Piau, Reppolho, Sidney Mattos e Xico Chaves. Entre seus intérpretes constam Anna Pessoa, Banda Du Black, Carlos Dafé, Claudio Latini, Elza Maria, Heloisa Helena, Luiz Melodia, Marcelo Peregrino, Mário Bróder, Marko Andrade, Pecê Ribeiro, Reizilan, Renato Piau, Reppolho e Victor Biglione. Gravou poemas em seis CD de parceiros e em seu disco solo “Quintal Brasil - poemas, letras & convidados”, (Selo Ipê Mundi Records/Noruega, 2012), com a participação de parceiros e intérpretes. No ano de 2013, pela Casa 10 Comunicação, publicou “Poesia Resumida - Antologia Poética 1978/2012”, com 2ª edição em 2014, pela EAS Editora. Mais em dicionariompb.com.br

O LIVRO ALGUNS ASPECTOS DA MPB pode ser baixado de graça clicando aqui.

O LIVRO "O Guitarrista Victor Biglione" também pode ser baixado de graça clicando aqui.

O verbete do guitarrista Victor Biglione pode ser baixado clicando aqui.

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