Olho vivo, faro fino | 12 de junho de 2015 - 14:03

Rás Bernardo, Cidade Negra e o contexto histórico

O nome dele é Francisco Bernardo Rangel, nasceu em Belford Roxo, cidade da Baixada Fluminense, mas, assumiu o pseudônimo Rás Bernardo, com o qual ficou conhecido. Vale lembrar que “Ras” é um título de nobreza etíope, que ficou mais conhecido quando da difusão no final da década de 1930 do Movimento RASTAFARI - Rás (Príncipe) Tafari (Da Paz), religião ligada ao reggae e fundada por Tafari Makonnen, depois coroado Hailê Selassiê, Imperador da Etiópia entre 1930 e 1974, mentor da resistência à invasão italiana de 1935. No caso do Bernardo, o “Rás” virou pseudônimo, mas, no caso do Makonnen trata-se de um epíteto: “Príncipe da Paz”.


No ano de 1983 Rás Bernardo passou a integrar a banda Novo Tempo, fundada alguns anos antes, em Belford Roxo, por Bino Farias (baixo), Da Gama (guitarra) e Lazão (bateria). Com a sua entrada o grupo mudou o nome para Banda Lumiar para participar de um festival na cidade. Logo depois, a Banda Lumiar passou a se apresentar em vários lugares, entre os quais o NEC (Núcleo Experimental de Cultura), espaço ligado a UNE (União Nacional dos Estudantes), com sede na Rua do Catete, onde também acontecia a reunião de poetas ligados ao Jornal Urbana, shows, happings e funcionava (entre 1978 e 1988) o “Forró Forrado”, evento ligado às tradições nordestinas (comidas, bebidas e músicas) apresentado por João do Valle e frequentado pelo pessoal da MPB como Chico Buarque e tantos outros. Portanto, o reggae e o xótis coabitavam o espaço, além de serem melodicamente muito próximos, mas, diferenciados pelo tempo fraco (xótis) e o tempo forte (reggae). Neste espaço apresentavam-se a KMD5, de Belford Roxo, a Ubandu Reggae e Don Luiz Rasta, entre outros. Ainda como Banda Lumiar participava de shows coletivos no Circo-Voador, na Lapa.


Em 1991, já com o nome de Cidade Negra, lançou, pela gravadora Sony, o primeiro disco intitulado “Lute para viver”, do qual das nove faixas despontaram pelo menos quatro: O primeiro grande sucesso da banda “Falara a verdade”, de autoria dos quatro integrantes e com uma letra calcada nas diferenças sociais; aguerrida, de questionamento, de cobrança etc, bem no contexto da época “Vamos falar a verdade pra vocês” e de refrão fortíssimo como “Ei, ei, estamos aí pro que der e vier”; a segunda da faixa, muito executada na época e ainda hoje o é, foi “Pensamento”, de autoria dos quatro integrantes, com uma visão um pouco mais poética, porém, não menos inquieta com relação às diferenças sociais-econômicas, meio conselheira: “Acorda meu Brasil” e “Você vai entender a força de um pensamento”; a terceira foi “Mensagem”, na qual contava com a participação especial do jamaicano Jimmy Cliff, que abriu algumas portas internacionais para a banda, tais como a participação no “Festival Sunsplash”, na baía de Mondego, na Jamaica, permitindo à banda uma pequena estada na França, abrindo shows para grupos importantes. A quarta composição que despontou foi a faixa-título, tendo certa aceitação na mídia.


Vale lembrar que por essa época (décadas de 1980 e 1990) o reggae estava muito bem representado por bandas como Tribo de Jan, fundada em 1986 por cinco deficientes visuais, em São Luís, no Maranhão (terra do reggae, por sinal, e por onde sempre entrou bastante informação sobre o gênero, por estar bem mais perto do Caribe do que do Rio de Janeiro e São Paulo). A banda lançou o primeiro disco, em 1992, intitulado “Regueiros, guerreiros”; o grupo KMD5, fundada pelo Dida Nascimento e da qual também fez parte o baterista Marcelo Yuka. A KMD5 já como Negril (nome sugerido pelo jornalista Carlos Albuquerque) lançou o primeiro CD em 1996; a banda Ponto de Equilíbrio, de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, que compunha músicas com cunho de resistência sociocultural. E por fim, a Nativus, de Brasília, que teve de mudar o nome para Natiruts, porque a gravadora Sony perdeu a ação conta uma banda de música regional de Santa Catarina.  Contudo, não havia uma unidade nacional quanto ao gênero, que ainda continuava alijado do mercado nacional, tendo um público bem segmentado, principalmente no Maranhão.


No ano de 1992 Rás Bernardo gravaria o derradeiro disco como integrante do Cidade Negra: “Negro no poder”, do qual a faixa-título alcançaria considerável sucesso, notando-se à essa altura, uma guitarra solando com uma pegada de rock, mas com letra que questionava à posição do negro na sociedade. Logo depois, Rás Bernardo deixou a banda para seguir carreira-solo. Contudo, durante a sua estada na banda participou de momentos emblemáticos como a apresentação no “Hollywood Rock”.


Após a sua saída a banda seguiu a carreira, mais pop, sendo chamado para produtor do novo disco o guitarrista Liminha, sendo este o primeiro trabalho tendo Toni Garrido como vocalista, lançado em 1994, emplacando os sucessos “Onde você mora” (Nando Reis e Marisa Monte) e “Querem meu sangue”, versão pra uma composição do Jimmy Cliff, um dos mais importantes artistas do reggae, assim como Bob Marley e Peter Tosh.


Por essa época, percebesse uma mudança de paradigma dentro das gravadoras - o Departamento Artístico perdeu força e o Departamento de Marketing ganhou - o que causou uma alteração no quadro de comercialização e prioridades de divulgação de artistas pertencentes ao quadro da companhia e um fortalecimento de alguns gêneros e estilos musicais mais ligados ao entretenimento, dentre os quais o “Pagode meloso” e “Sertanejo açucarado”. O produto da gravadora deixou de ser a “música” e passou a ser o “CD”. Como exemplo deste estado de cosas, temos o seguinte quadro: Em São Paulo surgem o grupo Exaltasamba, na Região do ABC paulista e Grupo Tempero, em Santos, ambos da gravadora Kaskata Records, este último depois do sucesso do disco produzido por Jorge Cardoso, que vendeu 100 mil cópias, foi contratado pela gravadora Sony, e um dos mais famosos, o Raça Negra, que lançou o primeiro LP em 1991 e no ano seguinte, em 1992, chegou a lançar dois discos pela RGE (Raça Negra volume 2 e 3). No Rio de Janeiro surgem o grupo Revelação, no bairro de Engenho de Dentro; Molejo, criado pelo Bira Havaí, o principal produtor de grupos deste estilo e o Razão Brasileira, entre outros. Por essa época apareceram Sorriso Maroto, Turma do Pagode, Grupo Raça, Pixote, Tcham, Raça Pura e grupo Papo Dez com seu “Sambanejo”. Para solidificar a existência deste grupos e deste subgênero do samba foram criadas emissoras segmentadas como Tropical FM e 94 FM Só Pagode, assim como a “Revista Só Pagode”, programas de TV e muito jabá pra sustentar essa enorme máquina. Depois surgiram a FM O Dia e outras deste porte musical, o que transformou o “Pagode” em um produto bem divulgado. O que não aconteceu com o reggae, que continuou nos espaços mais segmentados, outros dirão: em guetos musicais ou em estados específicos como o Maranhão.


O caminho tomado por sua antiga banda, Cidade Negra, para se adaptar ao novo cenário musical, foi se transformar em um grupo mais pop, assim como a banda mineira Skank. Quanto ao Rás Bernardo, este se manteve inexorável aos seus princípios pessoais e artísticos, o que o levou a vantagens e desvantagens diante à cena musical, aliás, como toda opção e escolha, que trazem consigo suas consequências.


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Sobre o autor

Euclides Amaral é poeta, letrista, produtor e pesquisador de MPB. Carioca, formado em Comunicação Social, publicou os livros de poesias Sapo c/ Arroz (1979/2ª ed. 1984), Fragmentos de Carambola (1981), Balaio de Serpentes (Poemas & Letras-1984), O Cão Depenado (1985), Sobras Futuristas (1986) e Cynema Bárbaro (1989). Lançou Emboscadas & Labirintos (contos/Editora Aldeia, 1995), Alguns Aspectos da MPB (ensaios/2008/2ª ed. Esteio Editora, 2010 - 3ª ed. EAS Editora, 2014), “O Guitarrista Victor Biglione & a MPB” (perfil artístico/Edições Baleia Azul, 2009/2ª ed. Esteio Editora, 2011 - 3ª ed. EAS Editora, 2014), “Desafio das Horas” (poesias e letras), em 2013, pela Casa 10 Comunicação, e “Poesia Resumida - Antologia Poética 1978/2012”, também em 2013 pela mesma editora e com 2ª edição em 2014, pela EAS Editora. Entre 1999 e 2017 atuou como pesquisador musical da Biblioteca Nacional, FAPERJ, PUC-Rio, FINEP, CNPq e Instituto Cultural Cravo Albin produzindo verbetes para o site dicionariompb.com.br, também utilizados no Dicionário Houaiss Ilustrado Música Popular Brasileira (Editora Paracatu, 2006). Colaborou em jornais e revistas com textos sobre a MPB. Publicou poemas em fanzines e antologias por várias editoras. A partir de 1978 produziu cerca de 30 discos para selos, gravadoras e artistas independentes. Tem registradas em CDs mais de 60 composições, entre gravações e regravações, em parcerias com Aljor, Big Otaviano, Bóris Garay, Cacaso, Carlos Dafé, César Nascimento, Claudio Latini, Cristina Latini, Eliane Faria, Elza Maria, Helô Helena, Ivan Wrigg, Jaime Pontes, Jênesis Genúncio, Jô Reis, Joel Nascimento, Lúcio Sherman, Marcelo Peregrino, Maria Tereza, Marko Andrade, Milton Sívans, Moisés Costa, Olten Jorge, Paolo Vinaccia, Paulo Renato, Reizilan Cartola Neto, Renato Piau, Reppolho, Rubens Cardoso, Sérgio Gramático Júnior, Sidney Mattos, Silvana Elizabeth e Xico Chaves. Entre seus intérpretes constam, além de muitos de seus parceiros citados, André Henriques, Anna Pessoa, Banda Du Black, Bernardo Diniz, Ceiça, Denise Krammer, Edir Silva, Grupo Mamulengo, Jane Reis, Jorge de Souza, Luiz Melodia, Luiza Dionizio, Mário Bróder, Martha Loureiro, Namay Mendes, Paulinho Miranda, Pecê Ribeiro, Solange Pereira e Victor Biglione. Gravou poemas em seis CD de parceiros e em seu disco solo “Quintal Brasil - poemas, letras & convidados”, (Selo Ipê Mundi Records/Noruega, 2012), com a participação de parceiros e intérpretes. Em 2017 finalizou o CD “Plural – letras, poemas, parcerias & intérpretes”, com a participação de parceiros e intérpretes. Mais em dicionariompb.com.br O LIVRO ALGUNS ASPECTOS DA MPB pode ser baixado de graça clicando aqui.

O LIVRO "O Guitarrista Victor Biglione" também pode ser baixado de graça clicando aqui.

O verbete do guitarrista Victor Biglione pode ser baixado clicando aqui.

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