Midiosfera | 02 de abril de 2017 - 23:37

Onde está a cultura?

Uma das noções mais controversas da sociedade moderna é a de cultura. Há uma disputa pelo uso dessa ideia em várias frentes com o emprego de estratégias que vão da redução à ampliação da noção para sustentar lutas pelo poder. É uma questão complexa, mas que pode ser examinada a partir de debates polarizados recorrentes que envolvem o termo “cultura” na sociedade contemporânea.


É comum a afirmação de que determinada pessoa ou grupo não tem cultura, porque se a possuísse ou tivesse acesso a ela não se comportaria de tal ou qual maneira, apreciaria determinadas expressões estéticas e compartilharia uma visão de mundo considerada como a mais correta. Daí a formulação de políticas culturais visando propiciar o acesso aos considerados bens e práticas culturais e mesmo projetos voluntaristas de promoção da cultura. Por essa via, cultura é algo a ser adquirido – muitas vezes em troca de dinheiro, embora essa relação seja muitas vezes embaçada –, recebido como uma graça divina, sinônimo de refinamento e concebido como descolado da mesquinha vida humana. Cultura, nesse sentido, é um mecanismo de distinção de grupos e pessoas, sendo seus detentores membros de uma elite elevada por ela ao topo da pirâmide social em cuja base estão aqueles pobres de cultura, portanto incapazes de gozos estéticos superiores e demonstrações de maneiras e hábitos refinados. A esses últimos, no máximo, caberia uma “subcultura” ou uma cultura de segunda classe, sem a superioridade moral da verdadeira cultura. Suas produções simbólicas e códigos estéticos e comportamentais não teriam as virtudes necessárias para serem abrigadas sob a ideia de cultura superior.


Essa noção restritiva – a cultura como arte e erudição – encontra sua forma institucional no mercado de bens culturais. Assim, a cultura se expressa na posse ou acesso às chamadas obras de arte e no domínio de códigos estéticos e também comportamentais. Frequentar concertos sinfônicos, espetáculos teatrais, galerias de arte, museus e cinemas, ler os escritores de reputação elevada e dominar as regras do comportamento polido são expressões da cultura. Essa noção, não sem tensionamentos, é a que sustenta em grande medida o mercado de bens simbólicos e os discursos que o constituem, como o do jornalismo cultural.


Mas há uma noção de cultura mais abrangente, forjada na disciplina da Antropologia,  cujo sentido não se refere unicamente às artes e à erudição, mas a todo “modo de vida” de um povo. Ela rivaliza com o também complexo conceito de natureza, estruturando uma visão dicotômica do mundo que tem sido atualmente criticada. Assim, o que não é natural, isto é, dado pela dimensão biológica do ser humano, é aprendido, portanto, cultural. Cultura, então, passa a abarcar todas as esferas da vida, assumindo um sentido totalizante, embora isso também seja objeto de muita controvérsia. De forma esquemática, tudo seria cultura, não havendo, portanto, hierarquias entre detentores de cultura e os outros. Todas as atividades e modos de pensar seriam expressões de uma cultura. Se esse conceito foi elaborado com o propósito de explicar o modo de vida dos povos dominados pelos impérios ocidentais – por um longo tempo chamados de “primitivos” – da África, da Ásia e das Américas, ele tem sido evocado por esses mesmos povos para marcar sua diferença na luta contra a dominação. Ele também tem permitido a reflexão sobre o modo de vida da própria sociedade que o plasmou. Pensar a si mesma como uma “cultura” entre outras coloca a sociedade moderna ocidental difenciada na escala da humanidade única.


Em linhas gerais, essas duas matrizes de pensamento sobre a cultura – cultura como arte e erudição e cultura como modo de vida – têm conduzido o debate sobre o que se considera como cultural no mercado de produções simbólicas contemporâneo. Se as atividades e produções consideradas artísticas e a erudição significam a “verdadeira” cultura, então há um filtro que as separa das outras atividades e produções humanas, estabelecendo uma hierarquia entre os detentores de cultura e os carentes de cultura, entre aqueles que desempenham essas atividades e produzem e/ ou consomem esses produtos e aqueles inaptos para isso. Por outro lado, se tudo é cultura, perde-se algo da possibilidade de crítica social que o conceito pode desempenhar. Tudo então se equivale e deve ser igualmente considerado. Aquilo que se prestaria à emancipação dos seres humanos e aquilo que os subjugaria tornam-se indistintos, pois a cultura não possui uma dimensão moral em si mesma: ela não é boa nem ruim. A guerra, os atos de violência, a devastação do planeta, a tecnologização da vida e as barbáries do capitalismo também são produtos da cultura. Nessa perspectiva, uma peça de Nelson Rodrigues e um combate de UFC são produções culturais equivalentes, não cabendo apreciações sobre o seu valor para a plenitude da vida humana.


 Entre esses extremos, a força crítica da noção de cultura parece se perder.        


                       


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Sobre o autor

Geraldo Garcez Condé é jornalista, mestre em Comunicação e doutor em Ciências Sociais. Ele mantém o blog: www.notageral.blogspot.com.

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