A Arte da Desmistura | 03 de julho de 2015 - 06:16

O homem e sua natureza

     Desde que surgiu na face da terra, o homem teve que aprender a conviver e tentar controlar o que o envolvia, para sobreviver. Primeiro, precisou entender a natureza, como forma de se ajustar a ela. Depois, conhecer a si mesmo, para se aperfeiçoar e atuar sobre o ambiente onde estava inserido, criando condições para satisfazer seus desejos, sem ignorar o seu semelhante. Tudo isso para, finalmente, estabelecer uma forma de alcançar seu objetivo maior, a perfeição. O problema passaram a ser os excessos.


     Mas há algo no homem que o impele a buscar sua superação, além da preservação da espécie. Algo que vai além do racional.


     Sempre que nos propomos a falar sobre o conhecimento do homem pelo próprio homem, passamos invariavelmente pelo terreno da filosofia. E, nela, pela sua evolução, o que se faz qualitativamente através do exercício da sabedoria.


     A filosofia dá os seus primeiros passos, na Grécia.


     Num primeiro momento, os gregos agrupavam todas as informações que tinham, no seio da filosofia, exceto os conhecimentos mitológicos. Só a teologia era tratada fora dessa grande massa cultural. Matemática, biologia, medicina, astronomia e todas as demais ciências, no transcurso de sua evolução, se desenvolvem, interligadas nessa base aglutinadora, até definirem as suas especificidades e se desligarem da grande mãe das ciências.


     Dessa forma, desde o primeiro momento que o homem pensa o homem, de forma estruturada, surgem sábios que se destacam por seus conhecimentos e habilidades. Na matemática, vamos encontrar Pitágoras. Na medicina, Hipócrates.


     Com Leucipo, temos a primeira tentativa de definir a elaboração do nosso mundo, fora do universo mitológico. Ele seria formado por átomos, pequenas partículas que reunidas criariam tudo o que nele existisse.


     Antes dele, se destacou, entre outros, Anaxágoras (500 a 428 a.C.), que fundou a primeira escola filosófica de Atenas. Foram seus contemporâneos, Empédocles (490 a 435 a.C.), autor das teoria dos quatro elementos, Sócrates (469 a 399 a.C.) e o sofista Protágoras (481 a 411 a.C.).


    Seu discípulo Demócrito (460 a 370 a.C.), de Abdera, hoje Trácia, conhecido como o filósofo que ri, desenvolveu a partir do princípio atômico de Leucipo, sua teoria da origem do mundo. Ele afirmava que o mundo era formado por dois elementos: o vácuo (não ser) e átomos (arke), partículas indivisíveis.


     São os primeiros materialistas conhecidos, entre os homens da ciência.


     Distinguido por sua sabedoria, são frases de Demócrito:


     "Sábio é quem não se aflige com o que lhe falta e se alegra com o que possui" e "toda belicosidade é insensata; pois enquanto se busca prejudicar o inimigo, esquecemos o nosso próprio interesse".


     Demócrito considera ainda que, para alcançar a perfeição, que ele trata por virtude, a melhor forma é o incentivo à descoberta, mas sempre através do uso de persuasão. E acrescenta que é uma prática pouco eficaz a punição para que a lei seja cumprida. Até porque quem evita o erro por temer a lei, provavelmente, agirá de maneira errada, em segredo. É fundamental o alinhamento com Leis da Natureza e a sua utilização adequada, para que se reduza a possibilidade de erro.


     Epicuro era natural de Samos (341 a 270 a.C.) e foi discípulo de Demócrito. Para ele, o propósito da filosofia, era atingir a felicidade, cuja característica principal é a ausência de dor (aponia) e a imperturbabilidade da alma (ataraxia).


     Sabendo que o homem, como os animais, foge da dor e busca o prazer, assegura que não há como evitar as dores físicas, que podem ser suportadas e não costumam ser duradouras. Mas as dores mais difíceis e duras de serem enfrentadas são as que perturbam a alma e podem permanecer conosco, por muito tempo, depois de nos atingirem.  Constata que elas costumam estar associadas a frustrações e geralmente tem origem em algum desejo não realizado. Achava que o melhor remédio para combatê-las seria através da reflexão. Percebeu ainda que as pessoas eram supersticiosas e, na sua ilusão, acabavam se afastando do verdadeiro sentido religioso e dos próprios deuses. Para ele, os deuses viviam em perfeita harmonia, em sua bem-aventurança divina.


     O prazer para Epicuro está na capacidade humana de dominar as emoções e alcançar a quietude da mente; portanto, no controle sobre si mesmo. Mas se dá fundamentalmente pela satisfação de uma necessidade ou quando se aquieta uma dor. Esse tipo de prazer é próprio dos sábios e só é alcançado pelo equilíbrio e precisão das atitudes, nunca pelos excessos.


     Epicuro, que lembra a figura de um profeta, mas um profeta do mundo, procurou um lugar especial para estabelecer a sua escola e passou a trocar ideias com seus discípulos, num terreno arborizado, nos subúrbios de Atenas, revolucionando, desta forma, a maneira de passar seus ensinamentos. O jardim ficava próximo ao silêncio do campo e os seguidores de Epicuro, por esta razão, passaram a ser conhecidos como os “filósofos do jardim”.


    A essência dessa mensagem é que a inteligência humana é capaz de conceber a realidade e que a felicidade é algo possível, principalmente, na ausência da dor e das perturbações. E que, para alcançar a paz, o homem só depende de si mesmo. Não depende nem dos próprios deuses. Tudo isso apontando para uma vida simples e regrada.


     Nos fragmentos dos seus escritos foram encontradas inúmeras cartas encaminhadas, entre outros, aos filósofos de Mitilene, aos amigos do Egito, da Ásia e do Oriente. Mas o seu conteúdo é, evidentemente, oposto à proposta platônica, de fundo teológico.


     Já num outro estágio de evolução e numa atitude missionária transcendente, que, muitas vezes, se transforma numa proposta religiosa, surgem homens que encontram prazer na felicidade do outro. Homens de fé, voltados para a sua mensagem.


     Neste padrão vamos encontrar Francisco de Assis.


     Francisco nasceu em Assis, na Úmbria, que fica na Itália, em 1182. Filho de um nobre, cresceu cercado de riquezas, mas abdicou de todos os seus bens, aos 24 anos.


     Seu caminho de provação e dor se iniciou com uma peregrinação por Roma, vivendo, a partir daí, na mais absoluta solidão e pobreza, quando recebeu a ordem:


     - “Vai restaurar minha Igreja, que está em ruínas.”


     São Francisco viveu da maneira mais simples possível, louvando a Deus e pregando o amor incondicional. Foi o santo da paz, amigo dos animais e da natureza.


     No fim da vida, cego e alquebrado por uma vida de penitências, volta a Assis, para morrer, humildemente, em 1226.


     São frases de São Francisco de Assis:


     “Para pregar a paz, primeiro você deve ter a paz dentro de você" e “comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível”.


 


     É conhecida mundialmente a sua Oração pela Paz e também de nos legou este primor de assertividade.


     “Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado...                                                   
      Resignação para aceitar o que não pode ser mudado...                                                        
      E sabedoria para distinguir uma coisa da outra.”                                       


 


     Foi canonizado, em 1228, por Gregório IX.


     Mas, neste momento, atuava na Grécia uma escola se articulava com a maioria das outras, de lógicas, as mais variadas, como a de Platão e Aristóteles. Era o estoicismo, fundado por Zenão de Cítio, em Atenas, no início do século III aC,, que também serviu de referência ao princípio missionário. Mas restaram poucos fragmentos das obras dos filósofos ligados a esta escola, em sua origem.


     Para Zenão, viver com virtude era viver em harmonia com a natureza e consigo mesmo, sendo, portanto, necessário abrir mão dos vícios e paixões. A sabedoria estava em não se deixar escravizar pela animalidade própria do ser humano. Mas a ideia da natureza como a ordem e o princípio racional que dirige tudo, de forma dialética, se choca com a visão platônica que divide o homem em corpo e alma.


    Epíteto dizia que “ o mundo é uma festa, da qual se deve saber quando e como se retirar”. Afirmava ainda que “a filosofia não visa a assegurar qualquer coisa externa ao homem” e que “a matéria-prima da arte de viver é a própria vida de cada pessoa”.


     A visão estoica incorpora grande parte do universo filosófico da Grécia e se baseia em que o homem não pode ir contra as Leis da Natureza, lei suprema e universal, mas ligada às divindades. Desta forma, afasta-se de alguns filósofos que não viam nos deuses uma obrigatoriedade filosófica.


    Os estoicos avançaram bastante na Medicina, com uma visão psicossomática do homem, portanto, outra contribuição significativa, inclusive para a ciência atual.


     Finalmente, numa forma mais abrangente de evolução, vamos encontrar teorias onde o ideal a alcançar, para o homem, se daria com o prazer pela utilidade. Nelas se visa a construção do bem comum, do ambiente propício para a evolução do homem, entre os homens; a Natureza como provedora natural da evolução humana. O homem à serviço do homem, sem ser seu escravo.


     Aí encontramos Spinoza.


     Quando trata “Da Servidão ou da Força das Paixões”, na sua Ética, Spinoza considera que as paixões humanas são naturais; não sendo boas nem más. E assevera que, quando deixamos que as paixões nos dominem, sob causas exteriores às nossas, somos invadidos por forças impulsivas, vindas de fora. Acontece o contrário, quando o homem deixa que sua natureza fale por si mesma e o guie: neste caso, é Deus agindo nele (homem), por ele e para ele. Esta, para ele, é a verdadeira expressão da liberdade.


     (...) “este Ser eterno e infinito que chamamos Deus ou Natureza, age com a mesma necessidade com que existe.”


     Para Spinoza, o homem só é livre quando conduzido pela razão. Concepções como bem e mal e perfeição e imperfeição são relativas, pois ele associa o bem à utilidade e o que é útil para um pode não o ser para outro. Em essência, mau é o que vai contra a Natureza, o que traz prejuízo ao homem e não é útil à sua conservação. Perfeição e imperfeição, ou bem e mal são apenas formas de pensar; maneiras que adotamos para comparar as coisas. Somos nós que lhe agregamos valores de positividade e negatividade, de acordo com a nossa ótica e interesse. Para ele as paixões humanas podem até impedir que se alcance a felicidade, porque é justamente na sua presença que o homem se opõe àquilo que lhe é natural. O fato da aceitação incondicional das Leis da Natureza (Deus), o encaminhará a amar a si mesmo, dando à vida o seu devido valor.


     Ou seja, a nossa razão se baseia naquilo que nos é útil e deve manter sempre presente esse princípio de utilidade até que se alcance à perfeição. No sentido oposto, a imperfeição é o que nos afasta desse vínculo utilitário, fazendo da razão escrava das paixões, impedindo a sua livre atuação e escolha. A passagem da paixão para a ação é que abre as nossas portas interiores. É a mudança de um estado passivo para outro que se transforma no motor da nossa existência. A submissão às paixões, na verdade, é uma fraqueza que acaba por minar com as nossas energias internas e suas potencialidades, desde o pensamento até a ação.


     Nietzche se aproxima de Spinoza, quando fala do homem e sua busca pela felicidade e na utilização das leis naturais que podem levar a ela. Considera que se deve evitar a indicação do caminho para que ela seja alcançada, ao indivíduo, porque a felicidade individual obedece a leis próprias, quase sempre desconhecidas pelo próprio envolvido e dos demais. Informações que venham de fora só atrapalharão, interferindo na nossa liberdade de escolhas adequadas.


     Do que segue, podemos considerar que a virtude, antes de ser um bem, é uma força potente, como diria Nietzsche, que dá autonomia à nossa existência. E é na potência e atividade dessa força que se encontra a liberdade individual. Coincidentemente, na Ética de Spinoza, vemos que, quanto mais nos esforçamos na busca do que nos é útil, preservando a essência do nosso ser, mais seremos virtuosos. Ao contrário, na medida em que ignoremos esta procura, corremos o risco de nos perdendo de nós mesmos e da nossa integração à Natureza.


     Outro ponto de concordância entre eles diz respeito à sua visão sobre piedade ou compaixão. Spinoza deixa claro que vê a piedade como nefasta, inútil para o homem racional. Considera que ela traz em si um sentimento de tristeza, que se manifesta quando somos tocados pela miséria alheia. E a tristeza é um mal que não traz nenhuma utilidade ou benefício ao homem. A compaixão, para Nietzsche, não passa de um engano. Seria como uma vingança ou legítima defesa diante do que nos provoca horror ou sentimentos tortos como a covardia. Desta forma, seria também uma fraqueza, com todo o abandono afetivo a que nos submete. Na visão nietzschiana, a compaixão seria uma duplicação do nosso eu, numa espécie de alter ego, onde sofremos pelo outro e, ao mesmo tempo, por nós mesmos.


     Spinoza ainda discorre sobre outros afetos que, segundo ele, causam danos ao homem, como a humildade, o arrependimento, a esperança e o temor. Nietzsche, neste sentido nos aconselha a fecharmos os ouvidos aos lamentadores. Considera que se nos deixarmos levar pelo lamaçal de lamentos, nós, pobres mortais, não suportaremos o peso de tanta tristeza.


     Mas todos esses afetos, para nós, são importantes, num primeiro momento. Uma postura de humildade evidencia nossa percepção de distanciamento da perfeição, evitando confrontações desnecessárias. O arrependimento nos proporciona a capacidade de perceber uma escolha mal formulada. A nova escolha, no entanto, não deve ficar presa ao estigma do erro assumido. O medo é um excelente indicador de que algo perigoso se aproxima. O erro maior está em nos deixarmos dominar por ele. Quem detecta um perigo, deve, imediatamente, se preparar para enfrentá-lo. A esperança, por sua vez, é um mal necessário. Quem não tem expectativa, não realiza. Só não podemos ficar cegos, diante dela. Tenho inclusive uma poesia que diz:


     - Sai da frente, esperança! Você não me deixa enxergar direito.


     Portanto, são sentimentos que servem de alerta, mas que mantidos, tornam-se estorvos.


    Para Nietzsche, o homem se supera quando atinge um estágio superior, que ele intitula de super-homem, e que pode ser traduzido como o lado humano, além do homem, onde ele realiza por si mesmo e, neste sentido, se afirma. Pois só quando investimos na nossa capacidade de realização, podemos alcançar nossos desejos e objetivos.


   Neste sentido, fica evidente que o que realizamos debaixo de um sentimento de temor não é saudável, pois está mais próximo de uma simulação do que de um desejo real ou escolha pessoal espontânea. Não praticar o mal, por temor a qualquer coisa, é, na verdade, uma fraqueza que pode evitar que as leis a que estamos submetidos possam fluir, na sua mais pura naturalidade.


     Para Spinoza, há uma tendência para o bem, mas que deve acontecer de forma natural. A alegria, sem excessos; a forma, adequada. Fugir do mal não passa de uma impostura intelectual que faz com que sentimentos e emoções sejam tratados de forma tutelada, para se ajustarem à realização de nossos desejos, sob risco de nos afastarmos dos desígnios da Natureza. E esse alinhamento corresponde ao conhecimento de Deus, porque Deus, para ele, é a própria Natureza, causa de si mesmo. E o mundo é Deus, enquanto causa e efeito de si mesmo, e até como modificação própria. A essência do ser deve ser a meta de nossa procura.


     Nesse patamar, lembro meu avô, Joaquim Rodriguez que, já nos seus noventa e seis anos, não admitia não ser mais útil para nada, e, principalmente, ficar na dependência de alguém, na sua mais simples relação de família. Quando se viu sem forças para evitar isso, abriu mão da vida, para voar como um pássaro, para o seu lado divino, como uma vela que vai abrindo mão da sua luz.


     Portanto, poderíamos alinhar Demócrito ou Epicuro a Francisco de Assis e a Spinoza, como pilares da busca do homem em direção à sua perfeição, no seu mais alto nível de investimento. Jesus, Buda, assim como Lao Tse  e Gandhi, alinham-se na grandeza transcendental que os faz próximos da divindade ou da sua mensagem.


     Muitos nomes poderiam ser aqui citados, mas trago apenas mais um: John Lennon, que, de forma antagônica a todos os que buscavam a aproximação com a perfeição e ao divino, lutava como um cavaleiro (talvez medieval) contemporâneo, para que o amor fosse abraçado pela humanidade, na sua mais livre manifestação. Às vezes, é assim que nasce o herói, que morre pela sua causa. Vide Jesus e todos os que foram sacrificados por se insurgirem contra a mediocridade.


     Temos a eternidade para alcançarmos a perfeição. Só espero que não demore tanto, porque o meu tempo, o nosso tempo, não é infinito.


 


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Sobre o autor

Ivan Wrigg Moraes é poeta, psicólogo, compositor, analista de sistemas, professor e articulista. Publicou cinco livros de poesia e uma antologia poética, dois de literatura infantil, uma prosa filosófica e quatro livros sobre história do teatro, além de ter gravado dois CDs solo (Lenha na Fogueira e Se Rolar, Rolou). Recebeu prêmio da UBE para o livro 3 x 4, de poesias.

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