Baixada Prosa & Verso | 02 de junho de 2016 - 20:42

O Contista

Às vezes via dentro de si o inferno criar asas. Tapava todos os buracos do corpo para que não se espalhasse. Inútil. Gênios sempre saem das garrafas. Entrava então numa luta feroz: não queria machucar ninguém à sua volta, mas não suportava a pressão. Quando mais jovem, consumira diversos tipos de drogas na tentativa de domar, ou pelo menos, amortecer, os seus demônios. Dos mergulhos em conhaque, vodca e até champanhe, voltava encharcado e exausto, torcendo para que não se repetisse a insólita aventura. Depois de uma certa idade e alguns vexames, tornou-se alérgico à embriaguez, foi quando descobriu a escrita. Começou rabiscando traços nas margens das folhas dos relatórios que levava para analisar em casa. Desenhou, em letras góticas, palavras desconexas na parede de seu quarto. Certa noite conseguiu reuni-las em algumas poucas frases. No dia seguinte, na hora do almoço, foi a uma papelaria e comprou um caderno pequeno de capa dura. Tornou-se escritor.


Sentia-se perdido. Percebia-se personagem irremediavelmente preso a um papel, que alguém depois de criar, largara de mão.


O cheiro bom da boceta limpa e lavada com sabonete. Pensou: parece meio chulo. Reescreveu: O olor suave da vulva saudável. Pensou: agora ficou muito científico. Riu da frase que lhe veio à mente: o cheiro da xereca em chamas. Rasgou o papel, pegou outra folha... A música do Caetano não lhe saía da cabeça. Por que não? Seria uma ótima referência. Claro, o escritor, para fugir de seus pensamentos depressivos, repetia os versos da canção ‘O Homem Velho’. “O olor fugaz do sexo das meninas”, enquanto rascunhava trechos esparsos de sua nova obra. Satisfeito com o novo resultado, pôs-se a buscar conexões com o que havia produzido antes. Porém por mais que se esforçasse, os textos não se emendavam. Contou os dias que faltavam para o prazo final de inscrição no concurso literário, aquele concurso que iria livrá-lo do anonimato, alçá-lo ao mundo exclusivo dos que vencem por seu próprio e especial talento. Multiplicou pelo número de horas livres diárias que lhe sobravam, descontado o tempo gasto no escritório, as horas vazias na condução e os períodos cada vez menores de sono. Percebeu que não conseguiria concluir o livro a tempo. Os fantasmas do passado, os medos de adolescente, o peso dos fracassos, voltaram a acossá-lo. Desabaram do teto sobre o seu peito. Perdeu o ar por segundos e o coração parou para logo voltar a bater num ritmo acelerado. A pele rapidamente ficou coberta por um suor mórbido. A crise de ansiedade é parte do processo depressivo – foi o que lhe dissera, meses atrás, o psiquiatra. Reconheceu os sintomas. Concentrou-se. Respirou. No fundo de sua consciência foi surgindo uma luz, uma ideia quase sem forma. Desenhou com esmero um asterisco e anotou ao lado: Não dormirás. Dessa forma, conseguiu completar o trabalho no prazo. Inscrito, classificado, aplaudido. Outros autores, sabe-se lá a que custas, apresentaram obras melhores que a sua - reconheceu-o logo. Ficou com um honroso quarto lugar. Não era suficiente para romper a barreira da invisibilidade a que estão fadados os artistas sem público. De jeito algum poderia largar o emprego, que lhe garantia a parca sobrevivência, para dedicar-se exclusivamente à escrita, como tanto sonhara. Também não era uma derrota total, daquelas de mergulhar no álcool, não sair da cama, entrar com um pedido de auxílio-doença. A editora que patrocinara o concurso, resolveu publicar uma coletânea com os dez primeiros classificados, embora isso não estivesse previsto no edital. Houve um bom retorno nos meios literários do país. Algumas resenhas nas poucas revistas que ainda abriam espaço para a literatura. Nas redes sociais, elogios e palavras de incentivo.


Não era o final feliz que ele havia projetado para a sua personagem, mas mantinha-se a possibilidade do sonho. Numa entrevista ao site Baixada Fácil, declarou: Tenho o maior respeito por quem retrato, cada um que exponho, por seus pedaços de vida publicados. Até porque não sei se um outro, um autor, não me descreve ou determina meu destino, conforme sua sede de criação, seu fluxo de imagens. Nós nos cremos criadores. Talvez sejamos, todos, personagens.


                                                                      


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Sobre o autor

Jorge Cardozo é Poeta e Gestor de Projetos Culturais e um dos protagonistas da movimentação cultural na Baixada Fluminense. Enquanto prepara seu novo livro de poemas, Ave da Periferia, Cardozo participa de saraus e discute a produção artístico cultural da região. O poeta chegou para falar.

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