Olho vivo, faro fino | 24 de junho de 2014 - 18:52

O centenário de Dorival Caymmi

Dorival Caymmi nasceu em 30 de abril de 1914 e é considerado um dos pilares da nossa música, uma das principais pedras que pavimentam o caminho da moderna MPB, junto a Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Ismael Silva, Heitor dos Prazeres, Radamés Gnattali, além de Cartola, Nélson Cavaquinho, Luiz Gonzaga, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, claro, surgidos em épocas e tempos diferentes. Contudo, o ponto pacífico é que são Portadores do Inesperado, a ligação entre o passado, o presente e o futuro.


 


As composições e arranjos dos citados não se prenderam a sua época específica e construíram essa ponte quântica entre os tempos que parecem estar separados no universo, contudo, esses artistas provam que não, pela permanência da obra produzida.


 


Caymmi fez parte de uma geração denominada pelo pesquisador Ary Vasconcelos como à “Época de Ouro” ou à “Era do Rádio” surgida na década de 1930, com o aparecimento do rádio e a sedimentação do samba pelo Pessoal do Estácio, dois dos meios e aspectos irão percorrer a sua obra e torná-la eterna, ainda que, no primeiro momento de sua estada no Rio de Janeiro, seria reconhecido como um autor regionalista por suas composições com citações do folclore e suas canções praieiras sobre sua querida Bahia, período que vai de 1938 a 1947, quando começa a sua segunda fase, a urbana, com os sambas-canção. Ainda que, neste primeiro período o compositor também fazia uso do samba como gênero, mas um samba diferente do conhecido no Rio de Janeiro, como consta em um de seus depoimentos:


 


“A música típica brasileira é o samba. E o samba na Bahia era um estilo de samba de umbigada, samba de rua, com influência portuguesa e africana”.


 


Dorival Caymmi foi para o Rio de Janeiro no dia 4 de abril de 1938, aos 23 anos, pouco antes de completar 24, no dia 30 do mesmo mês. Foi com o intuito de trabalhar como ilustrador de revistas, como já atuara no jornal “O Imparcial” em sua cidade natal, Salvador, onde também tocava seu violão e cantava em uma emissora local. Porém, seu sonho era ser ilustrado de revistas e por isso foi para o Rio de Janeiro, conseguindo um emprego na revista “O Cruzeiro” e ainda como cantor na Rádio Tupi, ambas pertencentes ao grupo Diários Associados, de Assis Chateaubriand, mas também se apresentava na Rádio Nacional. Ainda em 1938 o radialista Almirante indicou o samba-baiano “O que que a baiana tem?” para a trilha sonora do filme "Banana da terra", de Wallace Downey, sendo interpretada por Carmen Miranda, o que o lançou definitivamente no mercado fonográfico e artístico, pois viria a gravar o primeiro disco no ano seguinte, em 1939.


 


Segundo sua biógrafa Stella Caymmi:


 


“Curiosamente, ‘O que que a baiana tem?’ complementava a descrição que Ary Barroso fazia no samba ‘No tabuleiro da baiana’, um dos seus maiores sucessos nos anos 30, na voz da mesma Carmen Miranda, em dueto com Luiz Barbosa. Se Ary descrevia o conteúdo do tabuleiro da baiana, Caymmi esmiuçava seu traje. A típica baiana fascinava o imaginário do povo do Sudeste e Carmen não ignorava o fato”.


 


Dorival Caymmi e Jorge Amado são os responsáveis iniciais por nossa percepção de Bahia, pelo menos no que diz respeito a costumes e tradições. Depois deles o Estado deixaria de pertencer somente à Região Nordeste e passaria a ser reconhecido como parte de um Brasil muito maior que apenas Rio de Janeiro e São Paulo, ainda que um tanto quanto exótico, contudo, provedor de uma verve artística diferenciada.


 


De acordo com sua biógrafa Stella Caymmi, a fase urbana do compositor vai do período de 1947 a 1957, tempo das gravações dos sambas-canção “Marina” (1947), “Adeus” (1948), “Não tem solução” (1950), “Você não sabe amar” (1950), “Sábado em Copacabana” (1951), “Nem eu” (1952) e “Só louco” (1955), entre outros.


 


A permanência de Caymmi como criador está não somente em suas letras, mas, sobretudo, em suas harmonias, segundo Tom Jobim, que afirmava o caráter inovador de várias delas. Também o crítico Luís Antônio Giron comentou o reconhecimento de algumas de suas obras, por exemplo “O mar” (1940), como portadora de aspectos fundamentais de uma liberdade harmônica na MPB. Até a bossa-nova, que em seu primeiro momento negou alguns compositores, o reconheceu, porque Caymmi trazia em suas obras aspectos fundamentais para o novo movimento iniciado e sedimentado, a partir de 1958, por Tom, Vinicius e João Gilberto, este último reconhecia em “Rosa Morena”, o marco inicial dos caminhos, da batida, do jeito e do estilo que a bossa nova deveria alcançar se espelhando neste samba-moderno do mestre.


 


É de 1957 o seu LP de sambas “Eu vou pra Maracangalha”, no qual a composição “O samba da minha terra” (gravada originalmente pelo grupo Bando da Lua, em 1940) está incluída, depois regravada por João Gilberto, em 1961, e posteriormente, com uma pegada, também moderna, pelo grupo Novos Baianos no LP “Novos Baianos Futebol Clube”, de 1973.


 


Dorival Caymmi faleceu em 16 de agosto de 2008, no Rio de Janeiro, cidade na qual chegou e foi bem aceito por conta de seu talento e carisma, os quais o tornou imprescindível para a nossa cultura. O que pode ser constatado nos seguintes livros sobre o compositor: 


 


"Dorival Caymmi - o mar e o tempo", lançado em 2002 pela Editora 34 e a biografia "Dorival Caymmi e a Era do Rádio", lançada em 2013, ambos escritos por sua neta, a jornalista Stella Caymmi. 


 


Euclides Amaral é poeta e pesquisador de MPB com 10 livros publicados, entre eles “ALGUNS ASPECTOS DA MPB” (3ª ed. EAS Editora, 2014).


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Sobre o autor

Euclides Amaral é poeta, letrista, produtor e pesquisador de MPB. Carioca, formado em Comunicação Social, publicou os livros de poesias Sapo c/ Arroz (1979/2ª ed. 1984), Fragmentos de Carambola (1981), Balaio de Serpentes (Poemas & Letras-1984), O Cão Depenado (1985), Sobras Futuristas (1986) e Cynema Bárbaro (1989). Lançou Emboscadas & Labirintos (contos/Editora Aldeia, 1995), Alguns Aspectos da MPB (ensaios/2008/2ª ed. Esteio Editora, 2010 - 3ª ed. EAS Editora, 2014), “O Guitarrista Victor Biglione & a MPB” (perfil artístico/Edições Baleia Azul, 2009/2ª ed. Esteio Editora, 2011 - 3ª ed. EAS Editora, 2014), “Desafio das Horas” (poesias e letras), em 2013, pela Casa 10 Comunicação, e “Poesia Resumida - Antologia Poética 1978/2012”, também em 2013 pela mesma editora e com 2ª edição em 2014, pela EAS Editora. Entre 1999 e 2017 atuou como pesquisador musical da Biblioteca Nacional, FAPERJ, PUC-Rio, FINEP, CNPq e Instituto Cultural Cravo Albin produzindo verbetes para o site dicionariompb.com.br, também utilizados no Dicionário Houaiss Ilustrado Música Popular Brasileira (Editora Paracatu, 2006). Colaborou em jornais e revistas com textos sobre a MPB. Publicou poemas em fanzines e antologias por várias editoras. A partir de 1978 produziu cerca de 30 discos para selos, gravadoras e artistas independentes. Tem registradas em CDs mais de 60 composições, entre gravações e regravações, em parcerias com Aljor, Big Otaviano, Bóris Garay, Cacaso, Carlos Dafé, César Nascimento, Claudio Latini, Cristina Latini, Eliane Faria, Elza Maria, Helô Helena, Ivan Wrigg, Jaime Pontes, Jênesis Genúncio, Jô Reis, Joel Nascimento, Lúcio Sherman, Marcelo Peregrino, Maria Tereza, Marko Andrade, Milton Sívans, Moisés Costa, Olten Jorge, Paolo Vinaccia, Paulo Renato, Reizilan Cartola Neto, Renato Piau, Reppolho, Rubens Cardoso, Sérgio Gramático Júnior, Sidney Mattos, Silvana Elizabeth e Xico Chaves. Entre seus intérpretes constam, além de muitos de seus parceiros citados, André Henriques, Anna Pessoa, Banda Du Black, Bernardo Diniz, Ceiça, Denise Krammer, Edir Silva, Grupo Mamulengo, Jane Reis, Jorge de Souza, Luiz Melodia, Luiza Dionizio, Mário Bróder, Martha Loureiro, Namay Mendes, Paulinho Miranda, Pecê Ribeiro, Solange Pereira e Victor Biglione. Gravou poemas em seis CD de parceiros e em seu disco solo “Quintal Brasil - poemas, letras & convidados”, (Selo Ipê Mundi Records/Noruega, 2012), com a participação de parceiros e intérpretes. Em 2017 finalizou o CD “Plural – letras, poemas, parcerias & intérpretes”, com a participação de parceiros e intérpretes. Mais em dicionariompb.com.br O LIVRO ALGUNS ASPECTOS DA MPB pode ser baixado de graça clicando aqui.

O LIVRO "O Guitarrista Victor Biglione" também pode ser baixado de graça clicando aqui.

O verbete do guitarrista Victor Biglione pode ser baixado clicando aqui.

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