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Desisti de ser artista!

Sei que é um risco fazer essa afirmação logo na primeira linha. Mas agora tenho outras tantas para poder me explicar. Não tenho gostado de me identificar com um certo tipo de artista que se alimenta exatamente do “glamour” que impera nesse meio, todo artista tem aquele ar de: “olha como eu sou especial”.

Na cidade de São Sebastião do “meu” Rio de Janeiro isso ganha uma dimensão ainda maior, pois o fato de ter sido Capital Federal ao longo de 350 anos e a única capital da história das colônias que foi sede da coroa – isso mesmo, o Rio já foi capital de Portugal, sabia? – confere à cidade essa aura de metrópole cultural .

Dos musicais de variedades do Cassino da Urca à Radio Nacional, dos estúdios e filmes da Atlântida às novelas da Rede Globo, tudo isso contribuiu com a consolidação dessa aura glamurosa, embora eu saiba que não precisa estar no Rio para que um artista se sinta um Ser, digamos assim...diferente.

Sempre gostei de discutir linguagem e estética em conversas etílicas com amigos de teatro, mas confesso que fui me cansando por não ver mais tanto sentido naquelas discussões alimentadas por pessoas tão bem formadas e informadas, porém, sem nenhum dinheiro no bolso, pelo menos dinheiro oriundo de suas atividades artísticas. Tudo bem, o artista pode até ser especial, mas se ele pedir aumento em seu limite do cheque especial e disser que é artista, o banco não dá.

Não gostaria que essa reflexão fosse reduzida somente ao aspecto financeiro, ao contrario, quero falar de direitos e principalmente, do direito ao trabalho. A reflexão é simples: o trabalhador formal, recebe, além do salário pago pelo empregador, FGTS, férias e 13º salário, e isso custa quase o mesmo valor que ele recebe líquido. Portanto se ao receber um cachê, o artista, não consegue recolher esse direitos básicos, ele também estará excluído dos padrões de cidadania, sacou?

Aumentando a contradição: nós (artistas), responsáveis por fazer valer o direito que todo o cidadão tem à cultura, vemos ser violado o nosso direito de trabalhar, aliás muita gente ignora o fato de que somos trabalhadores, inclusive nossos próprios familiares, pior, nem na lista de desempregados do país aparecemos, tudo isso porque também não nos vemos nem nos assumimos como trabalhadores essenciais para o desenvolvimento social e humano.

Ainda tem um determinado setor da classe que tem hor-ror as chamadas contrapartidas sociais, confundindo direito e dever público com caridade e assistencialismo. É importante entender que projeto social é todo e qualquer projeto que esteja comprometido com um estado de direito, portanto, a atitude social do artista está muito além de distribuir ingressos ou fazer espetáculos em comunidades carentes. Função social do artista seria no mínimo se comprometer em conquistar seus direitos de cidadão-trabalhador para garantir a população o direito à cultura, isso no mínimo.

Muitos de meus amigos “teatreiros” se incomodam quando digo que não sou artista, e sim trabalhador, de fato, no mundo entre as artes e os ofícios estou mais para os ofícios, pois minha especialidade é a “palhaçaria”, sou do mundo cômico, o mundo cômico é o mundo ao contrário, logo, o palhaço como principal arquétipo do mundo cômico tem como missão mudar a lógica desse mundo. Portanto pretendo aqui defender um outro modelo de organização artística baseado no empreendedorismo e na atitude independente, associativa e cooperativada, para além da lógica vigente do patrocínio cultural.

Já é possível enxergar hoje no ambiente teatral brasileiro o surgimento de um outro modelo de organização, onde grupos buscam a sustentabilidade de seu projeto através de uma atitude de independência, alugando seus próprios galpões e salas de trabalho que tanto servem para o treinamento cotidiano, a pratica de oficinas e muitas vezes local de apresentação de espetáculos.

Como essa pratica surge, no ceio do Império mercadológico, paralelamente, esses artistas empreendedores que se vêm impelidos a buscar uma organização social mais ampla, se associando a outros grupos em cooperativas na tentativa de adquirir direitos e condições de exercer com dignidade sua profissão. Nesse momento, acredito que a discussão tenha que dar um salto que vá além do debate sobre políticas de patrocínio ou mesmo de políticas para cultura.

Como preconiza o sociólogo Domenico de Masi, estamos saindo da era industrial para a era pós-industrial, a primeira se dedica à produção de bens materiais e a segunda trabalha na produção de bens imateriais, subjetividades, valores intangíveis, e essa nova sociedade está nascendo diante de nossos olhos onde a produção e circulação de informação, arte, cultura, lazer, entretenimento, turismo, meio ambiente, definem um novo perfil para o trabalho e o trabalhador. Atenção, o grande capital já está se organizando pra continuar enriquecendo, agora sobre esse novo modelo, Barcelona 2004 está aí e não é à toa.

Diante disso, não seria demais dizer que num contexto mais amplo, nós artistas somos uma das principais mãos-de-obra nessa nova forma de trabalho e produção. Por outro lado, nem nosso direito ao trabalho está garantido, durma com um barulho desse. Ao meu ver só há uma saída para que, em épocas de mudanças de paradigma, nós não sejamos os novos explorados: trabalhar para que a política de cultura adquira status de política de Estado, para que o país se engaje num novo modelo de desenvolvimento que tenha a cultura como base fundamental para o crescimento econômico e social, fundamentalmente porque é cultura que pode garantir identidade aos países diante de um mundo globalizado.

O outro caminho, é assumir e aceitar que nós nunca seremos ricos e famosos com nossa arte, que não sonhamos com os privilégios das elites, ao contrário, entender que perdemos, que somos povo e o povo são os sindicatos, cooperativas, associações, mecanismos criados por quem já percebeu que esta é a única maneira de fazer valer os próprios direitos, além de serem as únicas ferramentas socialmente representativas que podem amplificar nossas vozes, desejos e sonhos rumo a construção de uma sociedade mais justa.
@xé