Colunistas

A HERANÇA DO PROVENÇAL

Introdução poética

Alfaiate de poemas

Eu vivo de coser palavras,
casear idéias e cerzir fonemas:
sou um simples alfaiate de poemas.

Eu ando dando tanta cambalhota
por sobre os muros, debaixo das botas
botando fogo nas geleiras mortas
que qualquer dia posso renascer.
Semente boa que se planta, brota
o sol aquece, o tempo esquece
e volta no adubo
húmus dos rumos do ser.

Eu ando pondo tanto pingo em jota
tapando furos, abrindo comportas
andando reto por estradas tortas
que qualquer dia posso nem sofrer
com a queimadura dessas águas-vivas
no mar remoto das afirmativas
que cedo ou tarde eu tenho de morrer.

De qualquer forma e sem alternativa
quanto mais morro, mais quero viver.
Porque eu vivo de coser palavras,
casear idéias e cerzir fonemas:
sou um simples alfaiate de poemas.

Sergio Natureza

A herança do provençal

Dedicado a Paulo Henriques Brito, poeta, tradutor e professor da PUC-Rio que inspirou esse texto e a forma como foi feita a classificação das tendências explicitadas.

Por onde andará a poesia? Como está sendo veiculada? Pergunto e respondo. De diversas formas. De tantas formas, que na certa precisaria de várias laudas para explicar e ainda assim não conseguiria. Porém, com a finalidade de afunilar a discussão vou tratar apenas de quatro tendências. Superficialmente das três primeiras e entrando um pouco no mérito estético de cada uma e por fim, um pouco mais profundamente da quarta, que é a que realmente me interessa. Sempre deixando claro, que toda classificação que se preza, deixa de fora muita coisa e parte do pressuposto que os exemplos citados são os mais representativos.

Construtivista:

A primeira tendência é a que podemos chamar de “Construtivista” é a que tem como base o apuro à linguagem, a impessoalidade e a desenfatização do subjetivismo. Esta tendência é representada por poetas descendentes da estética Mallarmaica e Poundiana. Seus representantes na maioria das vezes são estudiosos e críticos e por isso há uma certa facilidade na publicação de seus trabalhos, já que estão inseridos no mercado editorial. Citando alguns nomes que se destacam nesta tendência temos Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, José Paulo Paes, Antonio Fraga, Pedro Paulo de Senna Madureira, Carlito Azevedo e Paulo Leminski, este último, transitando mais livremente em outras tendências. O lado positivo desta tendência é a estratégia poética de negação aos excessos subjetivista, porém, com emoção e técnica na construção da linguagem, o que é o caso destes autores citados. Já o lado negativo, é o narcisismo intelectual do autor e a cumplicidade do leitor, que aqui e acolá reconhece determinadas citações de autores badalados como Joyce, Dante, Homero, Octavio Paz, Jorge Luis Borges, entre outros e compactua (o leitor) com esse excesso de formalismo que muitas vezes leva o poema à perda da emoção, tornando-se poema de citação.

Subjetivista:

A segunda tendência é a “Subjetivista” e tem como enfatização o “Eu lírico”. Dentre os nomes mais conhecidos desta tendência temos Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Vinicius de Moraes e Affonso Romano de Sant’Anna. O lado positivo desta tendência é que quando este trabalho é bem feito, não se distancia do apuro estético e consegue unir a carga emocional do autor à funcionalidade da língua como coisa viva que o é. Já o lado negativo, fica a cargo de poetas que declaram guerra ao próprio umbigo e pensam que suas dores, amores, paixões e sofrimentos são as dores do mundo e saem por aí cometendo poemas numa pieguice tremenda e com um baita narcisismo emocional e encontrando em alguns leitores a cumplicidade que merecem. É muito comum encontrar esse tipo de poeta em cadernos de poesias de iniciantes – infância poética. Todavia, sabemos que é impossível fazer uma obra de arte toda vez que se escreve, sendo necessário, porém, que se tenha “leituras” e conseqüentemente senso crítico na hora em que vai publicar um texto ou mostrar um trabalho.

Poesia de cunho vivencial e marginal ao mercado editorial convencional:

A terceira tendência é a que foi classificada na década de 1970 por críticos como Heloísa Buarque de Hollanda e Carlos Alberto Messeder Pereira, entre muitos outros, como “Poesia marginal” e que magistralmente o poeta e tradutor Paulo Henriques Brito chamou de “Poesia vivencial” em artigo no jornal Arte & Palavra. Essa tendência caracteriza-se pela reação aos excessos academicistas da poesia construtivista. Sua principal forma é o verso livre e a renovação da forma a cada poesia com base nas experiências imediatas do poeta, aproximando-se assim do ritmo e da fala coloquial, tendo como precursor desta tendência os poetas modernistas e entre eles Oswald de Andrade e Luis Aranha. Dos atuais agitadores deste tipo de poesia, mas com qualidade, temos Leila Míccolis, Tanussi Cardoso, Chacal, Ledusha, Simão Pessoa, Nicolas Behr e Alice Ruiz. O lado negativo desta tendência e o uso indiscriminado dessa não-forma e que muitos poetas pensam ser de fácil uso, bastando a espontaneidade. Porém, esquecem, esses poetas, que existe a inteligência crítica e o conhecimento de algumas das outras formas, conseguindo assim manter o equilíbrio quando for andar na corda bamba e no fio do verso livre.

Letristas:

A quarta e última tendência eu chamarei provisoriamente de “Canção” e classificarei pela via-poundiana usando a denominação de uma de suas categorias que é a melopéia, aquela na qual as palavras estão impregnadas de uma propriedade musical que orienta o seu significado, com base no som e no ritmo, muito comum nos poetas provençais: Guilhem de Peitieu (1071-1127), Bernart de Ventadorn (1150-1195), Marcabru (1130-1150), Bertan de Born (1140-1210) e outras feras dessa época que viriam a influenciar a nossa canção popular. Diga-se de passagem, que a denominação “canção” é literária, tais como soneto, haicai, ode e elegia, entre outras.
Esta forma de poesia (genericamente falando), atingiu uma amplitude tal que chegou aos nossos dias como o melhor meio de divulgação dos poetas, se não o melhor, pelo menos o mais eficiente hoje em dia. Como disse, terei que segmentar um pouco o tipo de poeta a ser comentado, descartando assim compositores como Caetano Veloso e Chico Buarque, que perfeitamente se encaixam como representantes de um tipo de poeta que trazem consigo a herança dos provençais. Contudo, pretendendo direcionar ainda mais o assunto, falarei apenas de poetas-letrista, entendendo aqui como tal, aqueles que lidam com a palavra e não (também) com harmonia e construção melódica como é o caso de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, este último, sem sombra de dúvida, um dos maiores letristas, tanto de suas músicas como nas de outros compositores.

O que quero tratar aqui é de poetas-letristas da nossa música popular e que através dela, conseguem divulgar seu trabalho para um público mais amplo, muito mais do que o público restrito aos livros. Em um país em que se lê pouquíssimo, ainda mais poesia, aliar a escrita poética à mídia é muito importante. Para se ter uma idéia, a cidade de Buenos Aires tem muito mais livrarias que em todo o Brasil, talvez pela inexistência de uma política governamental direcionada ao livro. São apenas três mil bibliotecas públicas em todo o país de dimensões continentais. O que existe, são esforços isolados como o do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro que na gestão de José Maria de Souza Dantas (escritor, poeta e professor de literatura) criou alguns projetos, que por fim definharam por falta de apoio municipal, estadual ou federal. Tudo isso, somando e multiplicando, fez com que os poetas procurassem formas de divulgação que não passassem somente pelo formato “livro”.

Origens de nossa língua e suas influências no nosso cancioneiro popular:

A nossa tradição de poetas atuantes na música brasileira vem do século XII, muito antes dos portugueses inventarem e invadirem o Brasil. Em 1139, após a Batalha de Ourique, contra os árabes, Conde Afonso Henrique, do Condado Portucalense, finalmente faria a independência dos portucalenses do Reino de Leão. Tendo em vista a língua diferente, dos reinos que formariam a Espanha (Castela, Aragão, Leão e Navarra), Portugal e Galiza falavam os últimos substratos do latim vulgar, que já havia fornecido outras línguas românticas como o provençal, italiano, sardo, catalão, francês, rético, arumênio (também conhecido como valáquio), landino (falado por judeus expulsos da Espanha no século XV, sendo uma antiga forma do espanhol que não evoluiu), reto-romano e o romeno. Com uma grande carga de lirismo musical, influenciada pelo poetas trovadores provençais, nasceu a língua portuguesa trazendo a contribuição indiscutível das camadas mais populares. Um dos primeiros documentos de Portugal independente surge em 1189, a “Cantiga da Ribeirinha”, de Paio Soares de Taveirós, escrita ainda em galaico-português. Mas é com o príncipe e poeta Dom Dinis (1261/1325) no livro “Cancioneiro d’El-Rey Dom Dinis” e com o Rei Dom Sancho que a poesia trovadoresca portuguesa se distanciaria dos moldes provençais das “Cantigas de escárnio”, “Cantiga de maldizer” e “Cantigas de amor”, sempre terminadas em vocábulos monossilábicos ou oxítonos com rimas agudas, conhecidas como “fracas” ou “masculinas”. Distanciando dos moldes provençais, a poesia portuguesa produziu a “Cantiga de amigo” (namorado), usando os recursos da linguagem popular, com versos terminados em palavra paroxítona e com rima forte, grave e feminina, cantada como fosse uma mulher enamorada. Para tanto, as cantigas versavam da seguinte maneira: Se o amado partiu pela manhã a cantiga seria Alba; se fosse à tarde seria conhecida por serena; se o sofrimento começou em uma festa seria baila; sê numa peregrinação seria romaria; ocorrendo em campo aberto seria pastorela e se fosse à beira mar a cantiga ficaria conhecida como barcarola. Portanto, a nossa língua já nasceu musical, oriunda de versos cantados em português arcaico e que mais tarde chegaria ao Brasil em autos (foram achados 44 deles) de Gil Vicente “Autos da Barca do Inferno, do Purgatório e da Glória” e Antônio Ferreira (1528 – 1569) em sua tragédia nacional “Inês de Castro” e na herança de João de Barros em suas “Crônica do Rei Dom Manuel I” e “Crônica do Príncipe Dom João” e ainda, no legado poético de Luis de Camões, sempre explorando os recursos do linguajar popular. Importante legado das letras portuguesas foi o livro “Cancioneiro Geral”, publicado em 1516 e organizado por Garcia de Rezende, secretário e biógrafo de Dom João II. Neste livro foram compilados trabalhos de Sá de Miranda, Gil Vicente, Bernadim Ribeiro, entre outros das letras portuguesas do século XVI. Ainda sobre o falar popular português que chegou ao Brasil no século XVI, o etnógrafo Luís da Câmara Cascudo em seu livro “Viajando o sertão” diz que o sertanejo usa o português do século XVI. Enquistado, durante séculos, naquelas regiões, o sertanejo, manteve o idioma velho, rijo e sonoro, dos antigos colonizadores. O português do século XVI nos traz Luís de Camões com os seguintes vocábulos: home (em vez de homem), desagardecido (desagradecido), eraro (claro), dixe (disse), ventura (sorte), alevantar (levantar), arreceio (receio), própio (próprio), treição (traição) e filosomia em vez de fisionomia. No livro “Cancioneiro Geral” também são encontrados os vocábulos alifante (elefante), camalião, arreceando e entrementes. Sá de Miranda escrevia alumeia, tromento, demudado e home. Bernadim Ribeiro em seu livro “Eclogas” trazia entonces no lugar de então, assossegou, empacho (embaraço), despois, inté e pulos em vez de pelos. No poeta Antônio Ferreira também encontramos trouve (trouxe), reposta (resposta), mezinhas (remédio), pide (pede), minino (menino), minina (menina), piqueno (pequeno), supito (súbito), malenconia (melânconia), escornado (perseguido), estamago (estômago) e o cujo no lugar de o tal. Há ainda os registros de gorpe (gole d’água) e graça como sinônimo de nome. Isso não nos lembra um pouco o dizê de Guimarães Rosa?

Essa nossa tradição ibérica no uso do falar cotidiano nos versos vem a desaguar em Gregório de Mattos Guerra, poeta baiano que no século XVII já cantava seus versos acompanhando-se de uma viola feita de cabaça fabricada por ele, segundo Araripe Júnior (Fortaleza, 1848 – Rio, 1911), citado por José Ramos Tinhorão no prefácio do livro “MPB -Muita Poesia Brasileira”, de Leila Míccolis.
No século seguinte apareceram muitos outros poetas fazendo o mesmo uso dos versos em música, entre eles o mulato-modinheiro e poeta carioca Domingos Caldas Barbosa (1738/1800), tido como o primeiro a levar a música brasileira para ao exterior, fazendo grande sucesso em Lisboa com as modinhas que criava, sendo este, considerado o criador do gênero “modinha”. Até que no século XIX, a partir de 1836 surgem as primeiras duplas de compositores como conhecemos hoje: um músico e um poeta como letrista. Parcerias como a do músico português Rafael Coelho com o poeta e criador do Romantismo Gonçalves de Magalhães. Vários outros poetas deste mesmo século enveredaram pela música popular, entre os quais as três gerações do romantismo: Álvares de Azevedo, Araújo Porto-Alegre, Arthur de Azevedo, Casimiro de Abreu, Castro Alves, Catulo da Paixão Cearense, Gonçalves Dias, Joaquim Manuel de Macedo, Laurindo Rabelo, Leopoldo Fróes, Machado de Assis, Olavo Bilac e ainda parcerias do músico e ator Xisto Bahia com Melo Moraes Filho, ascendente de Vinicius de Moraes. Sendo esses considerados os mais importantes da primeira geração de letristas no Brasil. No século XX, esse frisson pela letra da canção veio a desaguar em Mário de Andrade (que na sua polivalência também era músico), Manuel Bandeira (parceiro de Jaime Ovalle e Villa-Lobos), Dora Vasconcelos, Dante Milano, Orestes Barbosa, Otavio de Souza e Ferreira Gullar (quase todos parceiros de Villa-Lobos) e no que mais se enfeitiçou pela carreira de letrista: Vinícius de Moraes.

Já há algum tempo, a partir das décadas iniciais do século XX, a questão da influência da mídia fonográfica no trabalho dos poetas-letrista ficou mais acirrada e mais clara. Com a notoriedade e reconhecimento através da canção popular, o poeta-letrista ou como preferem chamar “compositor-letrista”, tornou-se mais conhecido do grande público. Fruto do trabalho feito nas letras de música, o poeta teve também o interesse do público direcionado para seus livros. Muitos desses livros, além de poemas, trazem também letras de canções com os diversos parceiros. Não querendo dizer que o suporte “livro” para a poesia tornou-se obsoleto ou mesmo ineficiente. Porém, fica bastante claro que a poesia com o suporte musical e fazendo uso das diversas formas de divulgação deste produto ganhou muito mais adeptos. Haja vista a quantidade de poetas-letrista que somente conseguiram projeção através da letra de música e/ou em muitos casos, uma projeção muito maior à nível popular como foi o caso de Vinicius de Moraes, que havia publicado em 1933 (aos 19 anos) seu primeiro livro de poesias "O caminho para a distância". Caso inverso aconteceu com o poeta-letrista Paulo César Pinheiro, que após anos e anos de trabalho de letra de música, publicou seu primeiro livro aos 27 anos “Canto brasileiro” em 1976.
A título de curiosidade citarei apenas alguns autores e alguns de seus livros, não todos, é claro:
“Canto brasileiro”, “Viola morena” e “Atabaques, violas e bambus” de Paulo César Pinheiro; “Tropicalismo para principiantes” e “Os últimos dias de Paupéria – Do lado de dentro” (póstumo) de Torquato Neto; “O tempo da busca” e “Memórias do boi Serapião” de Carlos Pena Filho; “Inquisitorial”, “Signo de Navegação Bahia e Gente" e "Estrela do Norte, Adeus" de José Carlos Capinan; “Punhos da serpente”, “Palávora” e “O beijo da fera” de Salgado Maranhão; “O surfista no dilúvio” de Sergio Natureza; “Asas” e “Mundo delirante” de Abel Silva; “Canção de Búzios” de Ronaldo Bastos; “Poemas & canções” de Ana Terra; “A palavra cerzida”, “Mar de mineiro”, “Segunda classe” e “Beijo na boca” de Cacaso; “Urucum X fumaça”, “Pipa”, “Trincheira de espelhos” e “Poeta vagabundo” de Xico Chaves; “Cemitério geral”, “Casa de pássaros”, “Caminho do meio” e “3X4” de Ivan Wrigg; “O gavião e a serpente” de Murilo Antunes; “Na busca do Sete-estrelo”, “Verão vagabundo”, “Piquenique em Xanandu” e “Por mares nunca dantes” de Geraldo Carneiro; “Motor” de João Carlos Pádua; “A marca do Zorro” de Tite de Lemos; “De versos” de Paulinho Tapajós; “O canto do homem cotidiano” e “Tapete do tempo” de Ildázio Tavares; “Me segura que eu vou dar um troço” de Wally Salomão; “Um cara bacana na 19ª” de Aldir Blanc; "Nas areias da ampulheta", "Sonetos da alma" e "Se eu pudesse dizer que te amei", de Paulo César Feital e ainda diversos poetas como Hermínio Bello de Carvalho, Chacal, Bernardo Vilhena, esses três com vários livros publicados.

Alguns poetas enveredam por outros gêneros literários ou mesmo vieram de determinados gêneros e navegaram na canção popular: Sérgio Cabral (biografia); Nei Lopes (etnografia); Paulo Coelho (misticismo); Abel Silva (romance ‘Afogados’, contos ‘Açougue das almas’); Oduvaldo Viana Filho (teatro); Guarnieri (teatro); Ruy Guerra (cinema); Luiz Galvão (memórias) e Márcio Borges (memórias).

Há outros que pouco se sabe de seus livros, contudo, seus nomes estão sempre atrelados a grande músicos-compositores. Suas letras com tal envergadura literária suprem o nosso afã de conhecê-los em livros, nomes como Fernando Brant, Vítor Martins, Paulo César Feital, Ronaldo Monteiro de Souza, Lula Freire, Antônio Cícero, Antônio Risério, Duda Machado, Fausto Nilo, Fernando de Oliveira, Paulo Emílio, Climério e Jorge Salomão, dentre muitos outros, muitos deles com livros publicados.

Há o caso de poetas consagrados que se deixaram levar nas asas leves da canção popular, seja colocando letra em música ou mesmo cedendo seus poemas para serem musicados, entre os quais Cassiano Ricardo, João Cabral de Melo Neto, Gilberto Amado, Solano Trindade, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Paulo Mendes Campos, Affonso Romano de Sant’Anna, Haroldo de Campos, Mário de Andrade, Patativa do Assaré, Cecília Meirelles, Renata Pallottini, Ronald de Carvalho, Augusto de Campos, Ferreira Gullar, Hilda Hilst e Manoel de Barros. Muitos desses poetas consagrados, além de cederem seus poemas, também faziam letras e as entregavam para serem musicadas, caso de Jorge Amado (com Dorival Caymmi, Dulce Nunes e Dori Caymmi), Guimarães Rosa (com Dulce Nunes pra quem entregou 15 letras, logo depois musicadas, tendo 12 delas ainda inéditas), Millôr Fernandes e Paulo Mendes Campos (também com Dulce Nunes), Ferreira Gullar (c/ Fagner, Milton Nascimento e Caetano Veloso), só pra citar alguns. Existem os letristas esporádicos como Maria Bethânia que compôs com Caetano Veloso cinco músicas (Caras e bocas; Luz da noite; O conteúdo; Pássaro proibido e Trampolim) e ainda com Rosinha de Valença “Cana caiana”.

As gerações de letristas

A título de curiosidade citarei apenas alguns letristas que compõem as diversas gerações, sendo as mais recentes, as que atuam a partir da década de 1960. É claro que muitos letristas ficarão de fora, isto por vários fatores: esquecimento, a falta de conhecimento da obra de certos letristas etc. As datas do início do trabalho como letrista também não são exatas e sim aproximadas.

1ª Geração: (a partir de 1836)

Albuquerque Medeiros, Álvares de Azevedo, Araújo Porto-Alegre, Arthur de Azevedo, Bastos Tigre, Bernardo Guimarães, Casimiro de Abreu, Castro Alves, Catulo da Paixão Cearense, Francisco de Paula Brito, Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Joaquim Manuel de Macedo, Laurindo Rabelo, Leopoldo Fróes, Machado de Assis, Melo Moraes Filho, Olavo Bilac, Pedro de Alcântara, Tomás Antonio Gonzaga e Vilela Tavares.

2ª Geração: (a partir de 1910/1930/1940)

Alcides Caminha (Carlos Zéfiro), Aldo Cabral, Álvaro Moreira, Antônio Maria, Braguinha (João de Barro), Dante Milano, David Nasser, Dora Vasconcelos, Elano de Paula, Evaldo Rui, Goulart de Andrade, Grande Otelo, Guilherme de Brito, Guimarães Passos, Haroldo Barbosa, Hermes Fontes, J. G. de Araújo Jorge, Jair Amorim, Joracy Camargo, José Carlos Burle, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Mário Lago, Mário Rossi, Mauro de Almeida, Murilo Araújo, Olegário Mariano, Orestes Barbosa, Osvaldo Santiago, Otavio de Souza, Renê Bittencourt e Vinicius de Moraes.

3ª Geração: (a partir de 1950/1960)

Anastácia, Augusto Boal, Augusto de Campos, Cacaso, Carlos Pena Filho, Chico Anísio, Clóvis Mello, Dolores Duran, Fernando Brant, Ferreira Gullar, Glauber Rocha, Gianfrancesco Guarnieri, Gracindo Júnior, Guimarães Rosa, Haroldo de Campos, Hermínio Bello de Carvalho, José Carlos Capinan, Lysias Ênio, Lula Freire, Márcio Borges, Mário Telles, Moacir dos Santos, Nelson Motta, Nuno Veloso, Oduvaldo Viana Filho, Otávio de Morais, Patativa do Assaré, Paulinho Tapajós, Paulo César Feital, Paulo César Pinheiro, Paulo Gracindo, Paulo Sérgio Valle, Paulo Thiago, Regina Werneck, Roberto Faria, Ronaldo Bastos, Ronaldo Bôscoli, Ronaldo Monteiro de Souza, Ruy Guerra, Thereza Souza, Torquato Neto e Wally Salomão.

4ª Geração: (a partir de 1970)

Abel Silva, Acyr Marques, Affonso Romano de Sant'Anna, Aldir Blanc, Ana Maria Baiana, Ana Terra, Arnoldo Medeiros, Antonio Bivar, Antônio Cícero, Antônio Risério, Arnaud Rodrigues, Arthur de Oliveira, Brandão, Cacá Diegues, Cláudio Rabello, Cláudio Ribeiro, Climério, Délcio Carvalho, Duda Machado, Ezequiel Neves, Fausto Nilo, Geraldo Amaral, Geraldo Carneiro, Guilherme Nascimento, Ildázio Tavares, Ivan Wrigg, João Carlos Pádua, Jorge Portugal, Jorge Salomão, José Jorge, José Miguel Wisnik, Juca Filho, Luiz Cláudio Tolomei, Luiz Galvão, Marco Aurélio, Maria Bethânia, Marília Trindade Barboza, Murilo Antunes, Nei Lopes, Olívia Hime, Paulo Coelho, Paulo Emílio, Paulo Frederico, Paulo Leminski, Ratinho (Alcino Correa), Renato Rocha, Rogério Duarte, Salgado Maranhão, Sérgio Cabral, Sérgio Fonseca, Sergio Natureza, Tite de Lemos, Toninho Lemos, Toninho Nascimento, Vandenberg Dantas de Souza, Vitor Martins, Xico Chaves, Zé Eugênio Monteiro e Ziraldo.

5ª Geração: (a partir de 1980)

Alice Ruiz, Aljor, Álvaro Maciel, Anamaria, Anastácia, Antônio Martins, Augusto Bapt, Arnaldo Antunes, Arnaldo Nisker, Augusto Magalhães, Bernardo Vilhena, Bráulio Tavares, Bruno Levinson, Carlos Alberto Galvão, Carlos Caetano, Carlos Costa, Carlos Rennó, Cazuza, Célio Khouri, Celso Borges, Chacal, Charles, Chico Amaral, Chico Assis, Chico Pereira, Claufe Rodrigues, Cléber Costa, Costa Netto, Cristina Latini, Cristina Saraiva, Dudu Falcão, Dulce Quental, Edu Planchez, Ele Semog, Eliakin Rufino, Elisa Lucinda, Euclides Amaral, Fausto Fawcett, Fernando de Oliveira, Fernando Pires Alves, Flávio Nascimento, Francisco Bosco, Fred Góes, Geraldo do Norte, Geraldo Duarte, Guile Wisnik, Guilherme Godoy, Jênesis Genúncio, João de Jesus Paes Loureiro, Jorge Neguinho, José Roberto Mendes, Kate Lyra, Kico Amaral, Ledusha, Luiz Alfredo Milleco, Luiz Carlos Góes, Luiz Carlos Máximo, Luiz Coronel, Lula Dimoraes, Manu Lafer, Marcelo Dolabela, Marcelo Paes, Marceu Vieira, Marcio Paschoal, Marcos Sacramento, Mariana Blanc, Marinaldo Guimarães, Mário Lago Filho, Mauro Aguiar, Mauro Mendes, Mauro Santa Cecília, Mônica Tomasi, Olten, Paulo George, Patrícia Travassos, Paula Toller, Pedro Landim, Rinaldo Barra, R. R. Juca, Rita Altério, Ronaldo Santos, Sidney Cruz, Silvia Sangirardi, Tanussi Cardoso, Tavinho Paes e Zé Edu Camargo.

Os poetas e os poetas-letristas chegam ao rádio:

No início da década de 1950 a radialista e escritora Maria Muniz – A Sherazade do Rádio – criou o programa “Poesia necessária”, veiculado por vários anos na Rádio MEC AM, nos quais selecionava poemas de grandes nomes da poesia brasileira, principalmente de seus amigos como Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, cujo epíteto “A Sherazade do Rádio” a ele é atribuído, ainda que a própria Maria Muniz tenha dúvida se foi o teatrólogo Nélson Rodrigues, também seu amigo. Mas ainda não era um programa sobre os letristas e sua poesia. No final da década de 1970, também na Rádio MEC AM, Heloísa Buarque de Holanda apresentava o programa “Café Com Letras”, no qual recebia poetas, desta vez ligados à nova geração da poesia pós 1970, principalmente poetas dos grupos Nuvem Cigana e Panela de Pressão, quase todos também atuantes como letristas. Já na década seguinte, o programa ficou a cargo do poeta-letrista Ronaldo Santos, do grupo Nuvens Cigana. No final da década de 1980, na mesma emissora, a Rádio MEC 800 AM, o poeta e letrista Paulo César Pinheiro levava ao ar o programa “Poeta Com Todas As Letras”, no qual recebia diversos letristas para falar sobre a carreira e ainda declamar poemas, além de serem executadas as composições dos convidados com seus diversos parceiros. Entre os que se apresentaram, na época, constam o poeta, letrista e arquiteto Otávio de Morais e ainda Abel Silva, Délcio Carvalho, Ana Terra, Cláudio Rabelo, Braguinha, Toninho Nascimento e Mário Lago, entre outros. Em 2007 Paulo César Pinheiro retomou a produção do programa, desta vez na Rádio Nacional 1130 AM. Levado ao ar às terças-feiras à noite, “Poeta Com Todas As Letras” apresentou um pouco da poesia e das letras de convidados como Sérgio Fonseca, Paulo Frederico, Délcio Carvalho, Sergio Natureza e Salgado Maranhão, entre outros. O programa, segundo o próprio Pinheiro, servia principalmente para os poetas convidados mostrarem seus poemas, principalmente aos editores, lembrando que a poesia é capaz de ser consumida, se for editada, é claro, o que não falta é público, tendo em vista as milhares de cópias de discos vendidas com as letras destes poetas e por que não mil ou duas mil cópias dos livros destes mesmos poetas?

Projetos que viabilizaram a presença do letrista para grande o público:

De 1985 a 1990 o “Projeto Brahma Extra – O Som do Meio Dia – Grandes Compositores”, contou direção geral de Ney Murce, produção e direção artística de Maurício Tapajós e Reginaldo Bessa. O projeto foi apresentado no Teatro João Theotônio, no Centro Cultural Cândido Mendes, no centro do Rio de Janeiro e além de compositores e intérpretes, também levou ao grande público o letrista para falar um pouco sobre seu trabalho e mostrar composições com diversos parceiros. Entre os letristas que se apresentaram destacamos Fernando Brant, Cacaso, Guilherme de Brito, Fausto Nilo, Abel Silva, Capinan, Paulo César Pinheiro, Braguinha, Hermínio Bello de Carvalho, Aldir Blanc e Paulinho Tapajós, todos com composições incluídas no dois discos da série, sendo o primeiro um álbum duplo (1988) e o outro um álbum simples (1990), ambos lançados pelo Selo Mercado Promoções. Outro evento de suma importância foi o projeto “Poeta Mostra a Tua Cara”. Idealizado e dirigido por Solange Kafuri, foi apresentado entre os anos de 1990 e 1995 nos seguintes espaços: Jazzmania e Rio Jazz Club (na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro) e no casa Duerê, em Niterói, cidade do Estado do Rio de Janeiro. Entre os poetas-letristas que se apresentaram declamando poemas, contando sobre a carreira e mostrando suas composições com parceiros e intérpretes convidados estão Abel Silva, Capinan, Sergio Natureza, Paulinho Tapajós, Guilherme de Brito, Ronaldo Bôscoli e Geraldo Carneiro.
Em 1996 Capinan, entre outros poetas, também participou do projeto "Fala, poeta", acompanhado pelo grupo Confraria da Bazófia, em Salvador, Bahia.

Os letristas chegam ao disco:

Além de Vinicius de Moraes com diversos discos, tanto de poemas interpretados por ele mesmo ou por outros (Vinícius de Moraes por Odete Lara) e ainda discos contemplando sua obra de letrista, isso nas décadas de 19760 e 1970, outros poetas chegaram ao disco, às vezes em registro simplesmente poético de sua obra, em outras vezes, como letrista, com vários intérpretes no disco. Como não há espaço para citar todos os discos de cada um, fica uma pequena mostra:

Fausto Nilo (12 letras de sucesso), Paulinho Tapajós (Amigos e parceiros, Coração poeta, Reencontro, entre outros e ainda Par ou ímpar – com Marcelo Lessa), Celso Borges (XXI, Música), Sergio Natureza (Um pouco de mim), Salgado Maranhão (Amorágio), Ronaldo Bastos (vários), Paulo César Pinheiro (vários), Abel Silva (A poesia de Abel Silva), Fernando Brant, Geraldo Carneiro (Gozos da alma, Por mares nunca dantes), Torquato Neto (Um poeta desfoha a bandeira e a manhã tropical se inicia, Todo Dia é Dia D), Ivan Wrigg (Lenha na fogueira), Paulo César Feital (Paulo César Feital e a Companhia das Ilusões/Cenas brasileiras com Gilson Peranzzetta/Carta ao rei. Paulo César Feital e Jorge Simas), Aldir Blanc (50 anos), Mário Lago (Nada além), Nei Lopes (A arte negra de Wilson Moreira & Nei Lopes, Negro mesmo, De letra & música, Celebração e Partido ao cubo, entre outros), Arnaldo Antunes (Nome), Manoel de Barros (Por Pedro Paulo Rangel e Manoel de Barros), Antônio Cícero (A Cidade e os livros, Antônio Cícero por Antônio Cícero)), Manuel Bandeira (Por Juca de Oliveira), Ascendo Ferreira (Por Chico Anysio), Afonso Romano de Sant’Anna (Por Tônia Carreiro), Elisa Lucinda (O semelhante, Euteamo e suas estréias). Vários destes discos foram lançados não somente por grandes gravadoras como EMI, Copacabana, CID, RGE, Fermata, Som Livre, RCA, Odeon, mas também por selos independentes como Dabliú Discos, Kuarup, Isaec, Dubas, Fábrica de Orvalho, CPC-Umes, Rob Digital, Songs, Fina Flor, Velas, Alma Produções e Luz da Cidade. Também, alguns dos discos (LPs e CDs) foram lançados por projetos específicos como “Poetas da canção”, do selo SescRio.Som, “Coleção Poesia Falada” (Selo Luz da Cidade) e ainda Projeto Torquato Neto, da Secretaria de Cultura, Desportos e Turismo do Piauí em parceria com o Centro de Cultura Alternativa RIOARTE, da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

Concluindo:

Certa vez, João Cabral de Mello Neto disse que Vinicius de Moraes tinha negado a poesia quando começou a fazer letra para música. João Cabral estava quadradamente enganado. Vinicius de Moraes apenas mudou de forma a sua poesia e não há como negar a contribuição dele para o nosso cancioneiro popular, assim como a de todos esses poetas que enfeitam a nossa música popular com seus versos e sendo assim, aprimoram-se também em uma escola tão rica em forma e conteúdo.

Para finalizar cito Augusto de Campos e um estudante japonês via-poundiana:

“Independente de quaisquer tendências ou ismos, a poesia é uma família dispersa de náufragos bracejando no tempo e no espaço e consiste em essências e medulas”.