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Devemos também votar em gente de fora da cidade?

 Em mais uma magnânima mostra de incompetência absoluta, a Secretaria de Cultura de Duque de Caxias contratou uma equipe da UFF- Niterói - para dirigir o teatro Raul Cortez, recém inaugurado.

A coisa na verdade já começou mal com a escolha do nome do teatro. É claro que nenhuma pessoa sensata tem nada contra a homenagem ao grande ator Raul Cortez, recentemente falecido, mas a função precípua de uma Secretaria de Cultura municipal é exatamente fomentar a cultura local. Nesse sentido deveríamos, obviamente, homenagear um artista da terra ou que tenha desenvolvido sua arte aqui. Nomes certamente não faltariam, pois a cidade produz cultura de alto nível a muitos anos e convivemos aqui com artistas como Paulo Renato ( Prêmio Moliere de teatro, assim como Ediélio Mendonça e Eve Penha ), Barboza Leite, que tem uma vasta produção nas áreas de Literatura e Artes plásticas, João de Deus, poeta fantástico que nos brindou com sua arte por vários anos, enfim, nada justifica a ausência de reconhecimento da cultura local.

Nossos bravos governantes, no entanto, frente ao apelo de grupos culturais caxienses, preferiram considerar "bairrismo" a reivindicação de reconhecimento da cultura local. Esta concepção culturalmente teratológica se dá, é claro, devido ao baixíssimo nível de comprometimento público de nossos governantes. Na verdade a administração pública não tem a menor noção do que seja cultura, e não apenas isso. Não tem também a mínima capacidade de desenvolver políticas públicas que visem o fortalecimento da cidade em nenhum aspecto. Basta dizer que quase a totalidade das "autoridades" municipais moram fora de Duque de Caxias, o que faz com que em um fim de semana, por exemplo, a cidade fique quase abandonada do ponto de vista administrativo.

É bom frisar que não me refiro a esta ou aquela administração, mas a uma cultura de descompromisso público que à décadas instalou-se no poder municipal.
Curiosamente, no entanto, os mesmos dirigentes públicos que consideram "bairrista" a defesa da valorização da cultura local pedem votos nas ruas a cada quatro anos e não raramente solicitam ao povo que vote em pessoas da terra para a ocupação de cargos públicos, ou seja: na ora de pedir votos apelam para o bairrismo. Nada mais cruel do ponto de vista político, pois ao contrário da famosa tábua das esmeraldas, de Hermes Tergimegisto, o que está embaixo não é igual ao que está em cima. O discurso de campanha não reflete a concepção governativa.

Por uma questão de lógica devemos fazer a leitura de que não há utilidade alguma em votar nos homens públicos da cidade se, quando no poder, eles próprios fazem questão de convocar "estrangeiros" para o exercício do poder, passando para a população um atestado de suas próprias incompetências.

Aqui na baixada mesmo, em Nova Iguaçu, vivemos um exemplo claro do que pode ocorrer quando Governantes locais se mostram incapazes de formular e executar políticas públicas. Frente a desqualificação reinante o povo daquela cidade optou por eleger um aventureiro vindo da Zona sul do Rio de janeiro - Exatamente como ocorre com alguns de nossos secretários municipais aqui em Duque de Caxias - o que acabou tornando a cidade uma espécie de terra de ninguém, onde a representatividade política se concentra nas mãos de quem não tem um mínimo de afinidade pessoal, política ou cultural com a terra.

Estamos no mesmo caminho, pois, apesar de elegermos Governantes locais, estes, em um ato completamente autofágico que só pode ser explicado, talvez, pelo velho e bom Sigmund Freud, "terceirizam" por assim dizer, a administração pública, ao invés de convocar seus mais capazes cidadãos para exercer o poder que lhes foi confiado pelo povo.

Na prática vivemos o ocaso da representação política. Não enxergamos mais nossos traços, nosso jeito e nosso modo de vida nas pessoas que nos representam. E o que é pior, inventamos um poder que não advém diretamente do voto, mas da caneta daqueles que deveriam respeitar os seus próprios eleitores, pois a representatividade do voto se dilui quando poder é exercido por intermediários e se anula quando estes intermediários refletem no espelho uma imagem completamente diferente daquela cuja a afinidade inspirou o voto do eleitor.

Na prática, enfim, nosso voto não vale mais nada e sendo assim não nos resta outra alternativa que não seja buscar os meios de valorização desta única arma de que dispomos. Pode ser até que por um aborto da natureza consigamos inverter a lógica desta concepção política pós "muderna". Quem sabe dirigindo nossos votos à políticos estrangeiros não consigamos, até por malandragem destes, recuperar o direito de ver nossa cidade sendo administrada por cidadãos caxienses.

Seria um absurdo. Surrealismo puro. Mas talvez esta seja a receita para recuperar nossa representatividade perdida. Creio que a classe política de Nova Iguaçu concorde com esta tese. Quem sabe a de Duque de Caxias também não concorda...