Colunistas

O olhar novo

Bom estar de volta. Estive durante vários dias pensando em como recomeçar, depois de tanto tempo de ausência. Ao longo do meu tempo no Baixada Fácil, tenho registrado minhas reflexões a respeito de arte e cultura, não só como artista, observadora e estudiosa do assunto, mas como ser humano, capaz de pensar e sentir. Embora meu enfoque continue voltado nessa direção, às vezes é interessante e mais descomplicado abrir o leque e escrever de forma mais pessoal e menos comprometida com assuntos específicos. E já que o novo formato das colunas incita à essa liberdade de palavras, sempre muito bem vinda, aproveitemos, pois.

Ultimamente, tenho pensado um bocado na questão da abertura de consciência. Em como as pessoas, graças a idéias e conceitos pré-estabelecidos, deixam de aprender coisas novas e crescer. O preconceito é uma prisão que construímos para nós mesmos em nome de um orgulho absolutamente sem sentido, uma clausura de ilusões que poda, limita, cristaliza. Não é preciso ir longe para ver até onde isso podem chegar – basta abrir os jornais. Derrama-se sangue para impôr-se idéias. Quantas coisas são ditas e praticadas em nome de uma suposta “verdade”, verdade essa que ninguém se atreve a desvelar, por que somos orgulhosos demais, ou burros demais, ou comodistas demais. Acontece nas mínimas coisas, em atos cotidianos, nas mazelas de nossas vidas.

Uma das primeiras coisas que ouvi em sala de aula, na faculdade, foi uma frase de Matisse que diz: “É preciso olhar a vida com olhos de criança.” Essa frase, apesar de sua simplicidade, foi de vital importância não só para a compreensão de tudo o mais que estava por vir na minha trajetória acadêmica, mas também a responsável por um processo de derrubada de muralhas erguidas na minha cabeça. Porque eu, como todo ser humano na caminhada, também tinha preconceitos, principalmente em relação à arte. Achava que arte “boa” era aquela produzida antes do século 20 – quanto mais acadêmica e naturalista, melhor – e que tudo o que viera depois era apenas uma tentativa patética de inovação, e pior, sem o menor traço da beleza que eu “aprendera” a enxergar. O tempo e o conhecimento me mostraram que eu estava errada.

Ainda hoje, a lição de Matisse me vêm a cabeça não só na avaliação de arte, mas na avaliação da vida. Os olhos de criança, sempre abertos para o que está além do quintal, para as novidades diárias da vida, sem os preconceitos que os adultos vão criando enquanto ela passa. Deixamos tanta coisa para trás por não sermos capazes de enxergar o mundo em sua amplitude, em suas possibilidades. Achamos que já vimos tudo, que sabemos tudo; e assim, olhos e corações fechados, seguimos com nossas certezas e verdades pequenas e deixamos de ser um pouco menos seres humanos, menos sábios e, consequentemente, menos livres.

Muitas vezes, não somos diretamente culpados por isso. Sofremos pressões do meio, da cultura vigente, da igreja, do grupo social. Como se diz por aí, ouvimos o galo cantar, mas não sabemos dizer onde. Aprendemos que uma rosa é vermelha porque nos disseram; se formos um pouco mais curiosos, podemos ir ao jardim e ela estará lá, e nós a perceberemos realmente vermelha, e encerra-se o assunto. No entanto, sequer desconfiamos que a cor é puro efeito físico, resultado da ação da luz sobre os corpos. Pode ser que a rosa nem seja vermelha. Pode ser que o vermelho que eu vejo seja diferente do que o que você vê. E como vamos saber se não mantivermos a inquietude da mente, o coração aberto, o olhar renovado? Como vamos saber enquanto não formos capazes de derrubar muros, de mudar nossos conceitos e fazer de nós uma pessoa nova a cada momento?

Você pode dizer que é livre. Mas jamais terá liberdade enquanto permanecer atado às suas próprias certezas. Que podem nem ser tão certas assim. Na maioria das vezes, não são.

E por isso, um olhar novo sobre o mundo, mais do que nunca, torna-se absolutamente necessário. Podemos, evidentemente, formar nossas próprias opiniões e conceitos, mas que sejam nossos, frutos de nossa própria observação, nascidas de nossas referências e vivências. E acima de tudo, aptos à reciclagem, à mudança, em nome de uma verdade sempre maior - o ser humano.

Patricia Ariel
é arte educadora, ilustradora e astróloga.
www.patricia-ariel.com
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