CENTAUROS DA POESIA
A história da poesia de Nova Iguaçu, cidade da Baixada Fluminense, do Estado do Rio de Janeiro, por Euclides Amaral.
No meado da década de 1970 a poesia já fervilhava em Nova lguaçu. A Revista Equipe, dirigida por Jocenir Ribeiro, dono da Gráfica e Editora Copy & Arte, editora essa que também contava com os irmãos Eduardo e Enock Cavalcante, assumia uma nova linha editorial abrindo espaço para a poesia e artistas locais.
Segundo Eduardo Cavalcante da Silva, foi por essa editora a publicação dos até então inéditos poemas eróticos do poeta Antonio Fraga, fato esse que desencadeou sua volta ao cenário nacional. Logo depois seria publicada uma matéria sobre o poeta, até então esquecido pela mídia, no suplemento “Caderno B”, do Jornal do Brasil.
Com o decorrer dos anos, novos grupos e novas publicações foram surgindo e desaparecendo, tais como o Grupo Tangerina integrado por Moduan, Thadeu Ferreira, Luiz de Campos (publicando a Revista Tangerina); o Grupo Calabouço, que entre seus integrantes contava com o poeta Eduardo Cavalcanti, apresentou-se no evento “I Encontro das Artes”, no Colégio Afrânio Peixoto; a Revista Amplitude (do Sesc); Revista Nosso Jeito (tendo como patrono o poeta Antônio Fraga); Jornal Teia, fundado por Adalberto Cantalice e Moduam Mattos, logo depois também pilotado por Eduardo Cavalcanti e ainda o Grupo Caco de Vidro (Lírian, Heitor Negrinho, Djair, J. A. Lima e Moduan), entre muitos outros.
A poesia continuava a dar seus mirabolantes vôos pelos bares (Casa da Pantera), praças e outras estações orbitais. Poetas de outras galáxias apareciam na cidade para dar uma canja e tomar cerveja, entre os muitos poetas, destaco Flávio Nascimento e sua caixinha de cinema, Samaral e seus poemas sonoros, Zé Cordeiro e seus pop's-repentes, Mano Mello e suas personas-desbocadas, Grupo Panela de Pressão e seus poetas-letristas com poemas regados à música (Jênesis Genúncio, Jorge de Almeida, Sidney Cruz, Lúcio Celso Pinheiro e Euclides Amaral), Grupo Passa na Praça Que A Poesia Te Abraça (Douglas Carrara e João Batista etc), só para citar alguns, já que a lista seria maior que a Constelação de Andrômeda.
As coletâneas começaram a surgir na década de 1980 com "Dez Auto-
res Iguaçuanos", publicada pela Copy & Arte, mesclando e liquidificando gente nova com pterodrátikos-efervecidos de tempos imemoriais, entre eles, Laís Sá do Amaral, Cirino Neto, Moduan, Luiz Coelho e outros poetas de plantão.
A "Antologia de Poetas da Baixada Fluminense" (26 Poetas Baixadenses) lançada por Gladstone Accioly e Cristina Siqueira, com o apoio da Rioarte é dessa época e também teve a colaboração do poeta e pesquisador Moduan Mattos - indispensável como consultor de Leila Míccolis, Heloísa Buarque de Hollanda, inclusive também a este que vos escreve e qualquer outro que queira desfrutar de seu magnífico acervo sobre a cultura da Baixada Fluminense, principalmente da cidade de Nova Iguaçu, de onde Moduan é oriundo e tem seu QG, nada secreto e sempre cheio de poetas, atores, músicos e convidados pros ritos dionisíakos e libações a Baco e ainda pras suas comilanças e bebidanças esporádicas, sempre regados à amizade e poesia.
Na década de 1990, a agitação passou pelo Daniel's Bar, nos "Encontros com a Poesia", na Casa de Cultura e na Praça José Hipólito, muitas vezes com o apoio da Prefeitura de Nova Iguaçu. Por essa época, surgiu ainda o zine "Desmaio Públiko" reunindo poetas novos e outros da era glacial, editado pela chancela Vício & Verso e capitaneado pelos poetas Cézar Ray e Eud Pestana.
A Editora Vício & Verso, de cunho e contrato social mirabolante, além de publicar o Desmaio Públiko (que chegou ao número centoebrown), lançou três livros de poesia: "Poesia de Final de Milênio", de Moduan Mattos, "Adnuntun", de Marlos Degamini, e "Moduan x Lírian Tabosa", autoria de e ambos.
Em 1996 Moduan Mattos publicou "Vermelho - Um século de poesia", contando um pouco da trajetória da rapaziada que gravitava no Desmaio Públiko, que nessa altura do campeonato, já era visto e assumido como "Grupo de poesia", mesmo que muita gente nem se desse conta disso. Era comum ouvir nos bares que "a rapaziada do Desmaio Públiko vai pintar hoje e vamos ter poesia a balde" ou mesmo "A poesia vai jorrar!". O livro de Moduan Mattos contou um pouco da estória dos lançamentos do zine, encontros, festas, raves-poétikas, acampamentos, convites aceitos pra outros lançamentos, festas de aniversários, e tudo mais que tivesse bebida e poesia, enfim... registrou um pouco dessa trajetória nervosa dos poetas novaiguaçuanos e dos inclusos, pendurados e atrelados como Lobo (de Niterói) e o casal Eud Pestana e Ana Cajueiro (da Penha). No ano seguinte, em 1997, Moduan, Batedor-da-poesia, saiu na frente conseguindo recursos financeiros para lançar "Anos 90 - Poetas na Baixada - Coletânea do fanzine Desmaio Públiko", que milagrosamente resumiu boa parte dos poemas publicados nos 100 números iniciais do zine. Neste mesmo ano surgiu “Poesia&CIA”, fanzine que estampava uma nova geração de poetas inspirados no Desmaio Públiko, tendo como um dos cabeças o poeta Thiago Mattos.
Em 2003, alguns poetas como Cézar Ray, Sil, Lírian Tabosa, Eud Pestana e Moduan Matos e outros centauros da poesia, galoparam no evento "Ecos da Baixada", no Sesc de Nova Iguaçu e ainda deram piruetas poétikas por vários points de poesia no Estado do Rio de Janeiro, sempre pulverizando versos, infernizando poesia e descabelando performances.
O zine "Desmaio Públiko" funcionou e funciona como catalisador, e em torno dele foram surgindo novos grupos como o Decúbito Dorsal (Júnior, Eloy e Cézar), Regojito Poétiko (Marlos & Monir) e outros que quem viver verá.
Entre os anos de 2003 e 2004, o casal de poetas atuantes, Moduan Mattos e Sil, fundou o Bar Raízes, estação orbital da discussão e pancadaria intelectual em prol da poesia e outras petecas-diáfanas.
No ano de 2005, uma outra ala do Desmaio Públiko, desta vez a ala mais cheirosa, apresentou-se no evento de inauguração do Espaço Cultural Sylvio Monteiro, no Dia da Mulher. O evento, realizado pela Secretaria de Cultura da Cidade de Nova Iguaçu, com o apoio da FENIG e Coordenadoria Especial de Políticas Para a Mulher, apresentou as poetas do Desmaio Públiko Feminino: Sil, Lirian Tabosa, Ivone Landim, Josi Lozada, Kátia Vidal e Ana Cajueiro. Neste mesmo ano, os poetas Marlos Degani, Cézar Ray, André Eira, Eud Pestana, Ana Cajueiro, Alcides Eloy, Lírian Tabosa e Moduan Mattos, entre outros, apresentaram-se regularmente, as terças-feiras, no Espaço Cultural Sylvio Monteiro em projeto organizado e produzido pela Secretaria de Cultura de Nova Iguaçu, na gestão do então secretário Roberto Lara. Nas apresentações o grupo recebia vários convidados, entre os quais, os poetas-letristas Ivan Wrigg, lançando o disco “Lenha na fogueira” e Sergio Natureza, lançando o disco-livro "Um pouco de mim”. O show de Sergio Natureza contou com direção de Euclides Amaral e falação de poemas do convidado por Iverson Carneiro, Salgado Maranhão, Euclides Amaral, Ivan Wrigg, Lúcio Celso Pinheiro, Eud Pestana, Eduardo Ribeiro e ainda com intervenção dos músicos Bruno Cosentino, Wagner Guimarães e Marko Andrade executando composições do convidado.
Esses eventos também atraíam um público bem diverso, entre os quais, mariposas-mestruadas, tanajuras de verão, transeuntes desavisados, professores de literatura, alunos de escolas da região, além de poetas residentes no coração da galera, como Manoel de Barros, Torquato Neto, Mário Quintana e Maiakovski, sempre presentes para receberem um tributo de estrelas pagos em suaves e eternas prestações pelos poetas de Nova Iguaçu.
Mas o que une mesmo toda essa galera não é só a poesia, é, além de tudo, a amizade, como sacramentou o poeta Eud Pestana no verso "A amizade é uma segunda pele".
Eu tive o prazer de estar presente em várias dessas fases e agitações e é por isso que assino
lá em cima
aqui do lado (Euclides Amaral)
e
cá embaixo.
Euclides Amaral
(poeta e letrista é amigo de plantão da rapaziada do Desmaio Públiko e pode ser encontrado no euclidesamaral1@gmail.com)
