Colunistas

A cura para uma simples paixão

 

Certa vez, escrevi que a paixão não passava de uma doença, um mero distúrbio hormonal. Claro que dito após um longo período em convalescença do mesmo mal. Tratei-a como tal, por ter a mania e obsessão de racionalizar todos os sentimentos humanos. Aprendi desde garoto a fazê-lo, e mais tarde entendi-me um escritor. Por esse motivo me aventurei a viver, pois só assim teria eu, maior compreensão das histórias que passariam aos montes bem debaixo de meu nariz. Esquecendo-me porém, que estaria fadado um dia à novamente adoecer. Penso que sendo eu grande entendedor das coisas da vida, estaria quase imune às armadilhas por ela proporcionada. E mais uma vez, exposto, como todo ser vivente adoeci.

 

Curiosa é a vida, dádiva nos dada em formato de páginas em branco, prontas a serem preenchidas da maneira que escolhermos. E assim a passamos, escolhendo quase tudo, mas nunca a quem amar. Consumimo-nos ano após ano, idealizando uma coisa que nunca depende só de nós, pois para que a paixão reverta-se em amor, basta que a vontade do outro seja a mesma que a sua. Ou simplesmente que encontremos, tão perdida quanto nós, a pessoa que comungue de sua mesma vontade. Difícil, tão somente se torna, compreendermos que não somos potentes de imprimir as nossas vontades aos demais e nem que fomos falíveis em julgar ter encontrado a agulha em um palheiro. Por isso que sofremos, e amargamos tanto a rejeição. Falhar, na maioria das vezes dói demais. Dá vontade até de morrer. Contudo, tudo é só uma questão de ponto de vista.

 

Nós, seres humanos, somos muito impacientes. E, portanto, tudo é pra já. Não sabemos que na outra ponta do papel tem alguém a procurar tanto quanto você. Então nos dispomos a nos enganar, desconhecendo o fato de que uma vida inteira, leva uma vida inteira. E isso é muito tempo! E o tempo que nos restar será sempre o suficiente, pois cada segundo feliz pode levar uma vida inteira. E acredite, um segundo pode ser muito tempo!

 

Porquanto seguimos nos desvalorizando, nesse meio tempo de tanta procura. Nesse imenso tempo de estar rejeitado, de se sentir impotente. Desse chorar magoado. E assim a paixão se faz, nos fazendo acreditar que vale a pena sofrer. Eu sei que vale... Contudo sei que a sabedoria popular nos ensina que não é bom se gastar vela com mau defunto. Mas como saber qual defunto é bom para se chorar?

 

Há algum tempo, desenvolvi um pensamento de que a mulher certa pra mim, precisaria de apenas um pré-requisito: Me enxergar. A mulher que fosse capaz de me notar no meio da multidão, certamente seria aquela que pudesse estar procurando alguém parecido com o quem eu sou. Pois quase ninguém além de mim é capaz de entender a grandeza de meus sentimentos, a sutileza de meus atos, a pureza de meu coração e a imensidão de meu amor. Feliz da mulher que tivesse me encontrado! Se não me pensasse tão arrogante... E quem, além de mim, poderia gostar tanto de mim quanto eu mesmo, quem além de um amor incondicional. Por esse motivo as mães são criaturas tão especiais.

 

O problema é que de impacientes que somos, procuramos motivos em quem não nos dá motivos, e as qualidades desejadas em quem não as têm. Buscamos o amor certo em quem não tem amor pra nos dar. A razão para que uma paixão possa ser tão avassaladora é não gostarmos de nós mesmos. Não o suficiente para enxergarmos o grande erro de juízo que cometemos.

 

A cura para minha paixão foi perceber que eu era tão maior que o objeto de desejo, que não valia a pena me deixar desprezar por alguém a quem não valesse a pena gostar. Pois se percebe isso pelas escolhas feitas pelo outro, sempre alguém fácil de se detestar, o que prova o conflito de interesses. Pessoas pequenas a ponto de te fazerem acreditar-se feio, se imaginar burro ou desinteressante. E se você é alguém que realmente se faz grande, aprenda que apenas a algumas pessoas, cabe a dádiva de te ver do jeito que você é, e mesmo assim querer estar do seu lado. Essas são realmente especiais. Daí, por essas, é justo se permitir e até sofrer, pois este tipo de sofrimento é o único a qual se deve ser permitido sentir. Mas não esqueça, essa é a cura para quem não é correspondido, por quem sucumbe a um simples e desmedido desejo. Para as outras, também equivocadas, basta à convivência.

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