Sempre tive meu pezinho 45 atrás com aqueles que vociferam que nunca se arrependeram de nada na vida. Que fariam tudo de novo igualzinho, da mesma forma que fizeram. Cada um no seu quadrado, mas acho difícil alguém não se arrepender de nada. Eu sou totalmente o oposto! Se eu pudesse voltar no tempo faria muitas coisas de maneira diferente, não faria algumas coisas que fiz e faria algumas coisas que não fiz. Arrependimentos? Devo ter uma penca deles. Posso até separá-los por temas: os do coração, os da profissão, os das injustiças cometidas, enfim, os de tantas coisas desse mundo.
Há em mim também um certo apego esquisito no sentido de estranho mesmo (“exquisito”, palavra que em espanhol significa «que tem uma qualidade, um refinamento e um bom gosto fora do comum») a recorrências de datas tristes em que cantores, cantoras e compositores brasileiros morreram e que ficaram íntimas dos meus pensamentos (fatos que as pessoas também negam, visto que preferem dizer que não se prendem ao passado, que isso não leva a nada, etc e tal). Sou de 68 e lembro da morte do Paulo Sérgio e do Antônio Marcos, por exemplo. Mas a primeira perda significativa para mim foi a de Clara Nunes, em 81. Lembro das casas tocando seus discos no volume máximo aqui no Rio e em Minas, terra onde nasceu. Pessoas tristes, o samba triste, os terreiros tristes; aquela entrevista emocionada com Paulo César Pinheiro que o Jornal Nacional do dia mostrou. Foi uma comoção geral. Logo em seguida foi a tragédia com a Elis. Essa, pelas circunstâncias da morte e pelo que representava Elis para o Brasil, também foi uma comoção generalizada. Era janeiro de 82. Lembro do clima suspenso no ar com a partida dela. Aquela lacuna que fica e que todo mundo sabe que ninguém vai poder preencher. Fico pensando na Elis, hoje, viva, com 62 anos. Com certeza já teria gravado Djavan (não sabia que a Elis nunca gravou ele? Pois... Eu também não sabia...), Cazuza (dá para imaginar “Brasil” na voz dela? E “Solidão que Nada”?), Paralamas, Lenine, Arnaldo Antunes, Luís Melodia, Eduardo Godin, Adriana Calcanhotto e certamente estaria, como sempre esteve, antenadíssima aos novos rumos da música brasileira.
Outra morte muito sentida por mim foi a de Gonzaguinha em 86. Acidente de carro estúpido lá no Paraná. Outra perda cruel foi a do Raul. Morreu cedo demais também e mortes prematuras de gente talentosa mexem muito com a gente. Cazuza, Renato Russo, Tom Jobim e agora mais recentemente a de Tim Maia. São perdas irreparáveis. Gente sem banco de reservas. Lembro exatamente o dia que chegou a notícia da morte do Tom. Dia 8 de dezembro de 94 e eu estava ouvindo meu walk-man. A rádio interrompeu a programação para divulgar a notícia. Foi um choque paralisante. A mesma rádio imediatamente começou a tocar suas canções e eu a chorar no ônibus.
Dentro da minha loucura completa e do péssimo hábito de sofrer por antecipação, fico imaginando o dia que chegar em meus ouvidos a notícia da morte desse pessoal que faz parte da minha vida: Chico, Gil, Caetano, Djavan, João Bosco, Milton, Edu Lobo, Roberto Carlos, Paulinho, Rita Lee, Bethânia, Gal, Ângela Ro Ro e os mais novos da geração 80, Herbert, Arnaldo, Lulu Santos, Lobão. Vai ser foda.
O vazio quando nasce se esparrama pelo chão.

Verdade Marlons... sofremos muito quando um ente querido se vai, por isso que encontrei na Doutrina Espírita o entendimento que ninguem vai pra sempre, aliás...só existe uma certeza ... que a vida é uma só.... eterna. E isso pra mim se tornou um grande consolo, pois saber que ainda vamos estar com entes queridos e que nunca vamos perder de vista nossos amigos... é um legal.
Um grande abraço e parabens pela crônica.
Paulão Nardi
marlos concordo com você sobre o arrependimento.Só um completo pragmático não vê que ao escolher um caminho na vida deixamos de escolher milhares de outros tão ou mais ricos(venturosos) do que aqueles escolhidos,ou tão ou mais pobres(medíocres), do que as escolhas realizadas.Se não houvesse arrependimento(ou insatisfação),,não haveria a necessidade de superação do estágio em que nos encontramos.Não entendi,no entanto,sua correlação do arrependimento com o saudosismo que descreve sobre alguns artistas.Também tenho lá meus saudosismos,mas não consegui associar uma correlação do parágrafo inicial com a conclusão do texto.
Eu costumo dizer que ninguém é substituível. Cada um daqueles que deixaram sua significante marca para a humanidade, nunca vão ter alguém que possa fazer aquilo, da mesma maneira e concomitantemente ser um substituto, preencher alguma lacuna. Mas creio que suas mortes sejam um passo apenas para a eternidade. Tenho uma teoria de que damos apenas aquilo que podemos (Uns menos, outros mais e outros simplismente nada, apenas espectam -E essa será sua função.) e a morte é apenas uma saída do palco na hora certa. Nas minhas ambiciosas pretenções de deixar algum legado a humanidade, sempre rezo para que assim que me falte a inspiração (caso me seja concedida a genialidade) o bom Deus possa também, que seja de forma prematura... não me importa, me soliciatar a outra esfera, pois assim posso ser lembrado pelo que fiz de bom. Creio que todas essas pessoas apenas fizeram um retidada oportuna e genial, como foram suas obras!