Olho vivo, faro fino | 19 de maio de 2016 - 22:31

Moduan Matus, do cajado ao teclado

Com um conhecimento que abrange a tradição poética em sua oralidade nata (vide os aedos trácios), entre outros aspectos, e a contemporaneidade brasileira dos saraus com sua linguagem pop-poética (vide os beatniks americanos), que expõe várias linguagens ao mesmo tempo, Moduan Matus é considerado um dos ícones atuais da poesia na Baixada, perfilado a outros grandes, tais como o amigo e admirador mútuo Antônio Fraga, que dele ressaltou a qualidade de “aproveitador de palavras”.


A história desse vate começa lá pelo final da década de 1970, quando em parceria com o poeta Adalberto Cantalice criou o Jornal Teia, depois fundou o Grupo Caco de Vidro, coletivo poético também integrado pelos comparsas Idicampos, Heitor Neguinho, Dejair Esteves e J.A. Lima. A partir de 1980 Moduan Matus lançou vários livros de poesia (alguns em parcerias e um com apresentação de Heloísa Buarque de Holanda); editou volumes exercitando sua verve em outros gêneros, entre os quais contos e crônicas, sendo, também, o mentor e colaborador em algumas das mais importantes coletâneas poéticas da cidade. Por isso, certa feita o poeta carioca Chacal vaticinou:


“Moduan, lenda viva da Baixada contemporânea”


Já o poeta Sérgio Natureza, que também dispensa apresentações, argumentou:


“Moduan, com você flui assim na língua dos que falam poetês”


Portanto, com esses trechos pinçados do livro “Na verdade: dois em um – Poemas travalinguistas – Contos minimalistas”, lançado em 2016, é que faço as primeiras reverências a esse poeta de Nova Iguaçu, uma das 13 cidades da Baixada Fluminense do Estado do Rio de Janeiro.


Cada parte do livro é precedida por um pequeno ensaio sobre o tema que será desenvolvido posteriormente, o que pode ser encontrado em alguns livros do poeta, tendo em vista a sua verve de pesquisador, como por exemplo, no volume “Quintais Tropicais”, de 2011, no qual desfiou um belo ensaio sobre a origem e o fazer do haicai desde o “Waca” (poesia típica japonesa dos tempos da criação do Império do Sol Nascente). Desta forma Moduan precedeu a parte “Poemas travalinguistas” com o texto “Trava-língua”, nos lembrando:


“É uma palavra do português brasileiro e trata-se de uma ludologia – esfera do conhecimento que abrange o que diz respeito a jogos e passatempos, brincadeiras infantis etc - ”


E continua a aula em mais esse trecho:


“Trava-línguas é um palavreado cujo enunciado corrente é dificultado por uma ou mais obstrução. São palavras paronímicas onde os vocábulos são quase homônimos, diferenciando-se ligeiramente na grafia e na pronúncia que,ditas repetidas vezes, com rapidez, trava a língua de quem as pronuncia”


Difícil escolher um dos poemas desta parte, tendo em vista a qualidade fonética alcançada, mas, fiquemos com esse metalinguístico:


“Não misturar


a literatura


oral do


litoral de


Gragoatá


com a garatuja


do manual


no manancial


de Guarujá”


Outro, dos meus preferidos, é este tendo como tema a música:


“Um samba de bumbo


em Cururuquara


uma quizomba zoada


na estada em quilombo


uma rumba de bamba


em Guaramiranga


e em graças Zefa Dandara


balançando miçangas”


E para fechar as citações poéticas:


“Entre pares: ímpares


entre ímpares: pares


se limpares os pares


sem limpares os ímpares


entre pares e ímpares


ímpios


parecerão páreas”


Esses três textos demonstram a pluralidade de temas exercida pelo poeta, deixando claro que a monotemática, inexoravelmente, não teve vez neste capítulo.


Na outra parte do livro, intitulada “Contos minimalistas”, Moduan Matus nos traz uma profusão de imagens, apesar do espaço restrito das palavras, que estão imbuídas de concisão e precisão matemática tão comuns no haicai japonês e nos dísticos, composição com apenas dois versos e que trazem sentido completo – tão antiga que se perdeu no tempo a sua origem, sabendo que a grafia pode ser oriunda de duas línguas antigas: Latim “distĭchon” ou do grego “diʃtiku”.


Ressalto desta parte do volume os seguintes mini-contos:


“Ao atirar a primeira pedra lascada


virou as contas e desmaiou com o baque,


enquanto o que não foi atingido patenteou o bumerangue”


O próximo me pareceu uma singela homenagem ao Drummond:


“Era uma pedra no meio do caminho e, para piorar,


entrou em um sapato que passava”


e para fechar, mais um de seus variados temas:


“Quando lhe tiraram o chão


alçou o esplendor no voo sem pisar em ninguém”


Enfim... “Moduan Matus, O Polivalente”, epíteto conquistado por ser poeta, cronista, pesquisador e observador antenado, atua na literatura contemporânea com a polissemia do discurso e que lhe peculiar, envolvendo o reconhecimento da tradição como vínculo direto com a modernidade latente, mas sem entropia no discurso, tão comum aos “moderninhos de plantão”.


Saber dosar cajado e teclado é uma arte quando se prepara a palavra para a degustação alheia e o poeta Moduan Matus tem a receita.


Bom apetite para os que têm o “Na verdade: dois em um – Poemas travalinguistas – Contos minimalistas”.


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Sobre o autor

Euclides Amaral é poeta, letrista, produtor e pesquisador de MPB. Carioca, formado em Comunicação Social, publicou os livros de poesias Sapo c/ Arroz (1979/2ª ed. 1984), Fragmentos de Carambola (1981), Balaio de Serpentes (Poemas & Letras-1984), O Cão Depenado (1985), Sobras Futuristas (1986) e Cynema Bárbaro (1989). Lançou Emboscadas & Labirintos (contos/Editora Aldeia, 1995), Alguns Aspectos da MPB (ensaios/2008/2ª ed. Esteio Editora, 2010 - 3ª ed. EAS Editora, 2014), “O Guitarrista Victor Biglione & a MPB” (perfil artístico/Edições Baleia Azul, 2009/2ª ed. Esteio Editora, 2011 - 3ª ed. EAS Editora, 2014), “Desafio das Horas” (poesias e letras), em 2013, pela Casa 10 Comunicação, e “Poesia Resumida - Antologia Poética 1978/2012”, também em 2013 pela mesma editora e com 2ª edição em 2014, pela EAS Editora. Entre 1999 e 2017 atuou como pesquisador musical da Biblioteca Nacional, FAPERJ, PUC-Rio, FINEP, CNPq e Instituto Cultural Cravo Albin produzindo verbetes para o site dicionariompb.com.br, também utilizados no Dicionário Houaiss Ilustrado Música Popular Brasileira (Editora Paracatu, 2006). Colaborou em jornais e revistas com textos sobre a MPB. Publicou poemas em fanzines e antologias por várias editoras. A partir de 1978 produziu cerca de 30 discos para selos, gravadoras e artistas independentes. Tem registradas em CDs mais de 60 composições, entre gravações e regravações, em parcerias com Aljor, Big Otaviano, Bóris Garay, Cacaso, Carlos Dafé, César Nascimento, Claudio Latini, Cristina Latini, Eliane Faria, Elza Maria, Helô Helena, Ivan Wrigg, Jaime Pontes, Jênesis Genúncio, Jô Reis, Joel Nascimento, Lúcio Sherman, Marcelo Peregrino, Maria Tereza, Marko Andrade, Milton Sívans, Moisés Costa, Olten Jorge, Paolo Vinaccia, Paulo Renato, Reizilan Cartola Neto, Renato Piau, Reppolho, Rubens Cardoso, Sérgio Gramático Júnior, Sidney Mattos, Silvana Elizabeth e Xico Chaves. Entre seus intérpretes constam, além de muitos de seus parceiros citados, André Henriques, Anna Pessoa, Banda Du Black, Bernardo Diniz, Ceiça, Denise Krammer, Edir Silva, Grupo Mamulengo, Jane Reis, Jorge de Souza, Luiz Melodia, Luiza Dionizio, Mário Bróder, Martha Loureiro, Namay Mendes, Paulinho Miranda, Pecê Ribeiro, Solange Pereira e Victor Biglione. Gravou poemas em seis CD de parceiros e em seu disco solo “Quintal Brasil - poemas, letras & convidados”, (Selo Ipê Mundi Records/Noruega, 2012), com a participação de parceiros e intérpretes. Em 2017 finalizou o CD “Plural – letras, poemas, parcerias & intérpretes”, com a participação de parceiros e intérpretes. Mais em dicionariompb.com.br O LIVRO ALGUNS ASPECTOS DA MPB pode ser baixado de graça clicando aqui.

O LIVRO "O Guitarrista Victor Biglione" também pode ser baixado de graça clicando aqui.

O verbete do guitarrista Victor Biglione pode ser baixado clicando aqui.

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