Midiosfera | 31 de março de 2011 - 01:29

Jornalistas sabem tudo ou o mundo segundo a imprensa

Nas últimas semanas, tem sido um assunto constante na imprensa em geral o aumento das taxas de inflação no Brasil, depois de um período de relativa estabilidade. Reportagens, colunas e editoriais dedicam-se a explicar ao consumidor de notícias o que está ocorrendo e, muitas vezes, a expor quais são os fatores que provocam o fenômeno de alta generalizada dos preços e como os agentes envolvidos – principalmente o governo – deve proceder para controlá-lo.  

Há certos assuntos como esse que parecem despertar nos jornalistas uma compulsão por revelar as verdades do mundo e a receita da vida. Os jornalismos político e econômico, em particular, são terrenos férteis para o discurso clarividente e de tom prescritivo. Quando se trata de esportes, notadamente o futebol, essa tendência se verifica ainda com mais intensidade. Mas esse é um caso à parte, uma vez que, por mais significativos que sejam para determinada parcela da população, raramente os esportes causam impacto comparável ao das esferas da política e da economia, ainda que estejam intimamente ligados a ambas.

Sobre as intrincadas relações de poder do que se convencionou chamar de política, são comuns as análises e a oferta de soluções baseadas num ideário gerencial. Muitos jornalistas dão a impressão de saber resolver com meia dúzia de ideias vertidas em poucas linhas questões seculares de governo e de Estado correntes nos mais diferentes contextos históricos. Tudo se passa como se tratasse apenas da adoção de um determinado programa de ação que lhes parece evidente, e que deveria assim também ser percebido pelos agentes envolvidos, a começar pelo destinatário das notícias.  

Numa revista como Veja, por exemplo, é usual encontrar diagnósticos da cena pública brasileira acompanhados de receituários. Reportagens sobre o que se consideram mazelas nacionais – corrupção, saúde, educação, segurança pública etc. – costumam servir também para demonstrar a incapacidade e, por vezes, a dispensabilidade das instituições envolvidas, sejam elas quais forem. A imprensa, nesse aspecto, torna-se repositório daquilo que as instituições, os agentes e o consumidor de notícias deveriam saber para bem proceder. Tudo é muito claro, direto e eficaz, como na linguagem dos manuais técnicos. Muitas vezes os imponderáveis dos conflitos variados de interesses e de pontos de vista subjacentes a esses problemas são reduzidos a uma incapacidade de fazer a coisa certa.

Os assuntos classificados como econômicos também não escapam a essa tendência. Digam respeito à gestão de recursos dos governos e empresas ou à esfera privada dos endividados, há sempre uma solução inequívoca. Na maioria das vezes inspirados em teorias econômicas conservadoras, repete-se incessantemente que para evitar a alta de preços o recurso é promover uma recessão, apesar das suas conseqüências desastrosas. Quanto à economia doméstica, vicejam em todas as mídias, mesmo em programas de televisão de grande audiência como o Fantástico da Rede Globo, os consultores com suas planilhas, prontos para ensinar o que fazer com o dinheiro, como consumir e como poupar para gastar mais adiante. As decisões são bastante racionais, técnicas, sem conflitos insolúveis, livres das paixões, justamente numa arena governada por desejos e fantasias.

Também nessa área, algumas poucas ideias alinhavadas numa coluna diária pretendem dar cabo de densos fenômenos como desenvolvimento econômico, mercado de trabalho ou inflação. E aí também se repete a tendência à univocidade. Diferentes autores em diferentes veículos escrevem quase a mesma coisa sobre o mesmo assunto. E, de modo geral, fazem afirmações que podem deixar um hipotético consumidor de notícias mais atento desconfiado quanto à sustentação delas. Mais ainda, despertam a suspeita sobre a que realidade se referem.  

Um tema recorrente nos últimos anos – o “apagão de mão-de-obra” – ilustra a questão do tom prescritivo, da univocidade e da distância entre algumas áreas do jornalismo e o cotidiano do consumidor de notícias. A fórmula da escassez de trabalhadores qualificados e do entrave que isso significaria para a dinâmica da economia é repetida com constância. Quase nunca ela é posta em confronto com dados empíricos sobre multidões de desempregados ou com a estrutural tendência de contenção dos salários que a reserva de mão-de-obra permite, nem se questiona o que, de fato, diz esse diagnóstico, possivelmente oriundo das consultorias e departamentos de RH. Mas a solução é sempre evidente e única: qualificação da mão-de-obra, seja lá o que isso significa.


Com respostas prontas e sem arestas, os jornalistas não estariam escrevendo para quem busca informação – o receptor típico do ideário profissional –, mas para quem se predisponha a compartilhar das mesmas crenças. A dúvida, a incerteza, o olhar distanciado e a desconfiança em relação aos assuntos de que tratam não parecem ser tolerados. O jornalismo, nesse sentido, deixa de ser uma prática discursiva e passa  realmente a acreditar que encarna o papel tantas vezes a ele atribuído de Quarto Poder num regime democrático. Amparado em dogmas e fórmulas, no entanto, o jornalismo se inspiraria muito mais em princípios teocráticos de iluminação e revelação.
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Sobre o autor

Geraldo Garcez Condé é jornalista, mestre em Comunicação e doutor em Ciências Sociais. Ele mantém o blog: www.notageral.blogspot.com.

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