Conversa fiada só amanhã | 31 de julho de 2017 - 13:12

Concursos e Desafios - Fumanga

A prova não foi difícil, mas eu nunca havia feito uma assim. As questões estavam elaboradas de uma forma diferente. Ainda não havia feito isso, não fui preparado ou não me preparei da forma como deveria.


Qual professor ainda não ouviu uma declaração como esta? Talvez aquele que não esteja inserido nessa realidade de pensamento voraz e dinâmica em boa parte dos exames, mas letárgica e obscura na formulação em aula.


Pedagogismos de lado, observamos que a qualificação deve e pode ser exercida mesmo em cursos de curta duração, funcionando como um couvert do conhecimento, escapando da lógica fast  food da formação


A tarefa hercúlea é: conceituar qualificação. Ao profissional não cabe apenas transmitir conhecimentos aliados às palavras macetes, bizus, caveirões e dicas, mas estabelecer uma relação de convívio intelectual entre o objeto de estudo e o ar que se respira, pensada numa relação tempo-espaço-movimento (contexto). Não, não é idealismo barato, mas a premissa para estar colocado no que se chama de mercado dos concursos.


Sabemos que os exames-provas, nos últimos 21 (vinte e um) anos, coincidindo com a promulgação da nova LDB, têm exigido uma vasta compreensão do professor-aluno na vivência do conhecimento, isso que talvez seja a essência da interdisciplinaridade[1]. Mas tais modelos de análise estabelecem um forte paradoxo, o da indeterminação. Pois, um tema por ser vasto permanece indeterminado. Por ser indeterminado, podemos tratá-lo sob os mais diferentes pontos de vista e sempre atingiremos algo certo. Entretanto, pelo fato de, na abordagem deste tema tão amplo, se interpenetrarem todas as opiniões possíveis, corremos o risco de nosso diálogo perder a devida concentração.


Os modelos apresentados nesse período em análise exigem do professor uma condição sine qua non: transformar-se professor-aluno, não bastando, apenas, trabalhar os modelos de provas anteriores e sim estudar a dinâmica das relações sociais concretas inseridas na gênese do conhecimento ali gerido, dominar a teoria e sua interdependência histórico-político-social, a dita realidade prenhe de referências cidadãs. Isso tem um custo dialético: professor e aluno saberem ouvir. Inovações tecnológicas? Depois, depois da reflexão.


Sim, grande parte dos concursos de referência nacional modificou-se consistentemente, tanto na área civil quanto militar, provocando uma transformação em cadeia nos concursos de abrangência regional-estadual, estabelecendo um tipo de candidato: multireferenciado. Um micro-pesquisador, um investigador que visa estabelecer relações, próprio da vivência do conhecimento independentemente da área a que se refere, destacando-se assim o processo de interpretação de textos e redação. Alguns o chamam de trabalhador politécnico.


Toda pesquisa procura ressaltar a insuficiência das abordagens anteriores, avançando na discussão de um problema há muito enfrentado e/ou inaugurado por esse olhar crítico, a fim de contribuir para a complexização do objeto pesquisado ou contemplação dos pontos de vista já defendidos. É um processo que não se esgota numa empreitada, num curso, estende-se, às vezes, por toda a vida que é composta de revisitações. Não somos românticos a ponto de esquecermos que o convívio entre professor e aluno, formando o professor-aluno, é determinado pelo capital. Se o primeiro não é pago por aquilo que exerce o segundo não terá referências positivas e os dois só se encontram porque o grupo aprova. Precisamos ler essa realidade. É uma realidade ocupada com o sentido primeiro da práxis, ou seja, vivenciar a reflexão teórica no âmbito de uma prática política. Não optamos por construir essa pesquisa, mas isso se tornou quase inevitável. Principalmente se vermos esse mundo candente, embevecido de três grandes revoluções industriais, que nos aponta que não é do âmbito da contingência a cultura, mas do espectro da necessidade. Sim, somos totalmente envolvidos com as diversas formas de exercimento da cultura cobradas nos exames, mas não é isso que nos grita numa primeira análise, importa-nos perceber como muda o comportamento das pessoas numa realidade dinâmica e vil; como se dá um processo de resistência com perspectivas de transcendência da realidade vivida. Em suma, as inovações tecnológicas no mundo do trabalho não exigem apenas um novo trabalhador (modus operandi), mas um novo homem com uma nova compreensão do que venha a ser humanidade, mesmo numa instância imediata – prova-exame.






[1] Por tratar-se de um exercício, um diálogo, optamos por não explicitar referenciais teóricos.





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Sobre o autor

Graduado em Pedagogia pela Universidade Federal Fluminense (UFF/1993), Licenciatura em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ/1998) e Mestrado em Educação pela UFF (2000), Especializado em Sociologia Urbana (UERJ). Atua em sala de aula há 30 anos, principalmente com Redação. Corrige textos com um nível de exigência um tanto maior que os Concursos Públicos. Ama Blues e nas pós-correções(?) de redações conversa com o Johnnie, Jack e Tanqueray... Seus companheiros de estradas intelectuais.

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