Olho vivo, faro fino | 27 de outubro de 2014 - 19:01

70 anos do anjo torto, louco e doido Torquato Neto

Torquato Neto foi poeta, letrista, ator, cineasta e jornalista.
Primo do ex-Ministro da Justiça Petrônio Portela e filho único do promotor público Heli da Rocha Nunes de Araújo e da professora primária Maria Salomé da Cunha Nunes nasceu em Teresina, capital do Piauí em 9 de novembro de 1944.
No ano de 1963 mudou-se para o Rio de Janeiro, passando a residir na Casa do Estudante Universitário (UNE), no bairro do Flamengo.
É considerado um dos principais letristas do movimento Tropicalista, sendo o autor da ideia de um "disco movimento" chamado "Tropicália ou panis et circensis", lançado em 1968, do qual participou ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Nara Leão, Capinan, os Mutantes e Rogério Duprat, grupo que aparece na capa do LP, que, segundo o poeta paulista Décio Pignatari estampou um erro:

"O termo certo em latim seria 'panem' e não 'panis”.

Em vida teve composições gravadas pelos principais intérpretes como Nara Leão, Elis Regina, Maria Bethânia, Gal Costa, Jair Rodrigues, Nana Caymmi e Sérgio Mendes. Entre seus parceiros mais conhecidos constam Geraldo Azevedo, João Bosco, Caetano Veloso, Toquinho, Gilberto Gil, Jards Macalé, Luiz Melodia, Geraldo Vandré, Nonato Buzar, Roberto Menescal e Edu Lobo.
Trabalhou em agência de publicidade, como divulgador de gravadoras e nos principais jornais do Rio de Janeiro, entre os quais o “Última Hora”, no qual manteve a coluna musical “Geleia Geral”, título homônimo de uma de suas letras mais famosas com melodia de Gilberto Gil, seu parceiro mais constante.
Em vida não publicou livro, mas vários seriam lançados após o seu suicídio em 10 de novembro de 1972, quando se trancou no banheiro e abriu o gás, deixando o seguinte bilhete:

"Pra mim chega. Vocês aí: peço o favor de não sacudirem demais o Thiago que ele pode acordar".

Em 1973 Waly Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte (a viúva) reuniram algumas de suas poesias, letras e textos editados na coluna do jornal "Última Hora" e lançaram o livro "Os últimos dias de Paupéria", que veio acompanhado por um compacto simples com as faixas "Três da madrugada", interpretada por Gal Costa e "Todo Dia é Dia D", interpretada por Gilberto Gil, ambas as composições em parceria com o compositor baiano Carlos Pinto. O livro também trouxe textos de apresentação de Décio Pignatari, Hélio Oiticica, Haroldo e Augusto de Campos e foi editado pela coleção "Na Corda Bamba", da Editora Pedra Q Ronca. O volume, com 116 páginas e cinco mil exemplares se esgotaria em poucos meses.
No ano de 1982 a Secretaria Estadual de Cultura, Desportos e Turismo do Piauí criou o "Projeto Torquato Neto", para incentivo da cultura local, patrocinando shows, eventos, encontros, gravações etc. Neste mesmo ano, pela Editora Max Limonad Ltda, o livro "Os últimos dias de Paupéria" foi revisto e ampliado, inclusive incluído o roteiro "Vida, paixão e banana do tropicalismo", escrito por Torquato em parceria com Capinan e que seria encenado com direção de Zé Celso Martinez. O volume passou a chamar "Os últimos dias de Paupéria - do lado de dentro" e teve como produtores Waly Salomão, Ana Araújo e o poeta Chacal.
Em 2013 o jornalista curitibano Toninho Vaz lançou a segunda edição, ampliada, de "A Biografia de Torquato Neto", pela Editora Nossa Cultura, no qual contou com diversos depoimentos de artistas e familiares nas 408 páginas.
Este ano, em 2014, pela passagem de seus 70 anos, serão feitos vários shows, lançamentos de livros, exposições e palestras sobre ele, destacando-se a temporada do show "ANJO TORTO - Patricia Mellodi canta Torquato Neto", da cantora piauiense Patricia Mellodi, no Teatro Cândido Mendes, no Rio de Janeiro, no qual também é apresentada uma exposição multimídia sobre a obra e a vida do homenageado, com fotos, poesias e textos, sob orientação de George Mendes, primo e curador do poeta. Neste mesmo ano de 2014 o radialista gaúcho Vanderlei Malta da Cunha encontrou em seu acervo entrevistas raras feitas nos bastidores do "IV Festival da Música Brasileira da TV Record", em novembro de 1968, nas quais entrevistou Tom Zé, Caetano Veloso e Rogério Duprat, além de Torquato Neto, em registro, considerado o único da voz dele, no qual entre vários assuntos falou sobre a questão da poesia na letra de música e da importância destes poetas da música na literatura oral brasileira. Ainda em 2014 a cantora e compositora Joyce musicou o poema “O poeta nasce feito", que Torquato fez em Paris para Ronaldo Bastos. Em vida havia mencionado, em um texto, o desejo de uma parceria de ambos, por sua admiração pela compositora. Também em 2014 foi finalizado o documentário "Anjo torto", dos diretores Marcus Fernando e Eduardo Ades, com apoio do Canal Brasil.
Entre suas composições de sucesso estão "Louvação" e "Vento de maio", com Gilberto Gil, e "Pra dizer adeus", com Edu Lobo, sendo regravada por Maria Bethânia, ainda na década de 1960 e, posteriormente, regravada por Tom Jobim e Edu Lobo, entre outros.
Segundo o historiador Jairo Severiano ('A canção do tempo' vol. 2, p.125), sua composição "Geleia geral", em parceria com Gil:

"Representa uma síntese dos cânones do próprio movimento tropicalista, além de ser modelo de seu contorno poético".

Torquato Neto é um dos artistas que a “mídia perversa” cisma de estigmatizar de “maldito”, por não se enquadrar nos critérios estipulados pelos que detêm esse poder de escolher, ou pensam que detêm.
Aos 70 anos, a maioria deles longe de quem o ama e dos que o admira, Torquato Neto continua desafinando o coro dos contentes, ainda bem!

BIBLIOGRAFIA UTILIZADA:

AMARAL, Euclides. Alguns Aspectos da MPB. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2008. 2ª ed. Esteio Editora, 2010. 3ª ed. EAS Editora, 2014.
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Sobre o autor

Euclides Amaral é poeta, letrista, produtor e pesquisador de MPB. Carioca, formado em Comunicação Social, publicou os livros de poesias Sapo c/ Arroz (1979/2ª ed. 1984), Fragmentos de Carambola (1981), Balaio de Serpentes (1984), O Cão Depenado (1985), Sobras Futuristas (1986) e Cynema Bárbaro (1989). Lançou Emboscadas & Labirintos (contos/Editora Aldeia, 1995), Alguns Aspectos da MPB (ensaios/2008/2ª ed. Esteio Editora, 2010 - 3ª ed. EAS Editora, 2014) e “O Guitarrista Victor Biglione & a MPB” (perfil artístico/Edições Baleia Azul, 2009/2ª ed. Esteio Editora, 2011 - 3ª ed. EAS Editora, 2014). Entre 1999 e 2015 atuou como pesquisador musical da Biblioteca Nacional, FAPERJ, PUC-Rio, FINEP, CNPq e Instituto Cultural Cravo Albin produzindo verbetes para o site dicionariompb.com.br, também utilizados no Dicionário Houaiss Ilustrado Música Popular Brasileira (Editora Paracatu, 2006). Colaborou em jornais e revistas com textos sobre a MPB. Publicou poemas em fanzines e antologias por várias editoras. A partir de 1978 produziu cerca de 30 discos para selos, gravadoras e artistas independentes. Tem registradas em CDs mais de 60 composições, entre gravações e regravações, em parcerias com Cacaso, Carlos Dafé, Claudio Latini, Heloisa Helena, Jô Reis, Lúcio Sherman, Marcelo Peregrino, Marko Andrade, Reizilan, Renato Piau, Reppolho, Sidney Mattos e Xico Chaves. Entre seus intérpretes constam Anna Pessoa, Banda Du Black, Carlos Dafé, Claudio Latini, Elza Maria, Heloisa Helena, Luiz Melodia, Marcelo Peregrino, Mário Bróder, Marko Andrade, Pecê Ribeiro, Reizilan, Renato Piau, Reppolho e Victor Biglione. Gravou poemas em seis CD de parceiros e em seu disco solo “Quintal Brasil - poemas, letras & convidados”, (Selo Ipê Mundi Records/Noruega, 2012), com a participação de parceiros e intérpretes. No ano de 2013, pela Casa 10 Comunicação, publicou “Poesia Resumida - Antologia Poética 1978/2012”, com 2ª edição em 2014, pela EAS Editora. Mais em dicionariompb.com.br

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O LIVRO "O Guitarrista Victor Biglione" também pode ser baixado de graça clicando aqui.

O verbete do guitarrista Victor Biglione pode ser baixado clicando aqui.

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